LULA e Chico Buarque estão entre os signatários do ‘Let Cuba Live’ contra ‘El Bloqueo’ dos EUA na ilha

23/07/2021 0 Por Redação Urbs Magna
LULA e Chico Buarque estão entre os signatários do ‘Let Cuba Live’ contra ‘El Bloqueo’ dos EUA na ilha

Gleisi Hoffman, Frei Betto e Wagner Moura também estão entre os 50 brasileiros, dentre os mais de 440 nomes, que pedem a Joe Biden a reversão das sanções à ilha, que foram amplificadas no governo Trump

O ex-presidente Lula e o cantor e compositor Chico Buarque de Holanda estão entre os mais de 440 ativistas, políticos, artistas e intelectuais de diferentes países que assinam uma carta pública dirigida ao governo do presidente dos EUA, Joe Biden, que está prevista para publicação no jornal americano americano New York Times nesta sexta-feira (23). O documento critica o embargo comercial e econômico que os EUA impõem a Cuba há mais de seis décadas. Publicado como um anúncio pago no jornal, o texto pede que Biden reverta as mais de 200 sanções levantadas por seu antecessor, o republicano Donald Trump, que recrudesceu o embargo à ilha na retórica e na prática. “Não há razão para manter as políticas de Guerra Fria que levam os EUA a tratar Cuba como um inimigo, em vez de um país vizinho”, diz um trecho. Entre os mais de 50 signatários brasileiros estão o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o cantor e compositor Chico Buarque, o ator Wagner Moura, a deputada federal Gleisi Hoffman (PT) e o frade dominicano Frei Betto. Também assinam a vereadora Monica Benício (PSOL-RJ), o integrante do movimento Entregadores Antifascistas Paulo Lima (o Galo) e o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).

Na lista de nomes internacionais estão figuras como os atores americanos Mark Ruffalo e Jane Fonda; a filósofa Judith Butler; o linguista Noam Chomsky; o Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel; e o ex-presidente do Equador Rafael Correa. O ex-analista militar Daniel Ellsberg, que vazou os papéis do Pentágono na década de 1970, também é signatário.

A organização da carta aberta foi capitaneada por três organizações americanas —People’s Forum, Answer Coalition e CodePink—, as mesmas que nesta semana anunciaram o envio de 6 milhões de seringas a Cuba para ajudar na campanha de vacinação na ilha caribenha. O dinheiro para pagar pela publicação do anúncio foi doado por essas e outras organizações que assinam o documento, segundo disse à Folha Manolo De Los Santos, codiretor da People’s Forum.

A carta será publicada um dia após o governo Biden propor o contrário do que é pedido pelos signatários: uma nova rodada de sanções contra o regime comunista da ilha, anunciada nesta quinta (22). A medida, ainda a ser detalhada, tem como alvos o ministro das Forças Armadas Revolucionárias, general Alvaro Lopez Miera, e uma unidade de segurança do Ministério do Interior.

A Casa Branca argumenta que as novas sanções são uma resposta às violações de direitos humanos durante a repressão aos atos registrados em Cuba há pouco mais de uma semana, em 11 de julho. “Este é apenas o começo; os EUA continuarão a punir os responsáveis pela opressão do povo cubano“, disse Biden, pouco após o anúncio das medidas.

O documento pede que, “em vez de seguir o caminho traçado por Trump em seus esforços para desfazer a abertura iniciada por [Barack] Obama”, o democrata vá além. “Retomar a abertura, iniciar o processo de encerramento do embargo e acabar com a severa escassez de alimentos e medicamentos deve ser a principal prioridade“, diz.

Consideramos inescrupuloso, especialmente durante a pandemia, bloquear intencionalmente as remessas e o diálogo de Cuba com instituições financeiras globais, já que o acesso a dólares é necessário para a importação de comida e remédios“, diz outro trecho.

Na terça (20), a Casa Branca havia dito que o governo Biden formaria um grupo de trabalho para revisar a política de envio de remessas de dinheiro para a ilha, com a possibilidade de afrouxar a norma. Nada foi implementado por ora.

A discussão sobre o bloqueio imposto pelos americanos voltou à tona após a nova onda de protestos em Cuba —a maior desde a década de 1990. Organizações como as que assinam a carta argumentam que o embargo está entre as principais razões para a insatisfação que levou os cubanos às ruas para pedir políticas mais efetivas de combate à escassez de alimentos e remédios e, também, mais liberdade política.

Manolo De Los Santos diz que as organizações entendem que os protestos expressam frustrações reais e legítimas do povo cubano, mas que “foram manipulados por redes baseadas na Flória [EUA] para que fossem convertidos em atos contra o regime, e não protestos sociais”.

Leia a íntegra da carta em tradução livre:

“Carta Aberta ao Presidente Biden

Caro presidente Joe Biden,

É hora de dar um novo rumo às relações EUA-Cuba. Nós, abaixo assinados, estamos fazendo este apelo público e urgente a vocês para que rejeitem as políticas cruéis postas em prática pela Casa Branca de Trump, que criaram tanto sofrimento entre o povo cubano.

Cuba – um país de onze milhões de habitantes – vive uma crise difícil devido à crescente escassez de alimentos e medicamentos. Protestos recentes chamaram a atenção do mundo para isso. Embora a pandemia de Covid-19 tenha se mostrado um desafio para todos os países, o foi ainda mais para uma pequena ilha sob o peso de um embargo econômico.

Consideramos inescrupuloso, especialmente durante uma pandemia, bloquear intencionalmente as remessas e o uso de Cuba de instituições financeiras globais, visto que o acesso a dólares é necessário para a importação de alimentos e medicamentos.

Quando a pandemia atingiu a ilha, seu povo – e seu governo – perderam bilhões em receitas do turismo internacional que normalmente iriam para o sistema público de saúde, distribuição de alimentos e ajuda econômica.

Durante a pandemia, a administração de Donald Trump endureceu o embargo, colocou de lado a abertura de Obama e colocou em prática 243 “medidas coercivas” que intencionalmente estrangularam a vida na ilha e criaram mais sofrimento.

A proibição de remessas e o fim dos voos comerciais diretos entre os Estados Unidos e Cuba impedem o bem-estar da maioria das famílias cubanas.

“Apoiamos o povo cubano”, escreveu o senhor em 12 de julho. Se for esse o caso, pedimos que assine imediatamente uma ordem executiva e anule as 243 “medidas coercitivas” de Trump.

Não há razão para manter a política da Guerra Fria, que exigia que os EUA tratassem Cuba como um inimigo existencial em vez de um vizinho. Em vez de manter o caminho traçado por Trump em seus esforços para desfazer a abertura do presidente Obama a Cuba, pedimos que sigam em frente. Retomar a abertura e iniciar o processo de encerramento do embargo. Acabar com a severa escassez de alimentos e medicamentos deve ser a principal prioridade.

Em 23 de junho, a maioria dos estados membros das Nações Unidas votou para pedir aos EUA o fim do embargo. Nos últimos 30 anos, esta tem sido a posição consistente da maioria dos Estados membros. Além disso, sete relatores especiais da ONU escreveram uma carta ao governo dos Estados Unidos em abril de 2020 sobre as sanções contra Cuba. “Na emergência da pandemia”, escreveram eles, “a falta de vontade do governo dos Estados Unidos em suspender as sanções pode levar a um risco maior de sofrimento em Cuba”.

Pedimos que acabem com as “medidas coercitivas” de Trump e voltem à abertura de Obama ou, melhor ainda, iniciem o processo de fim do embargo e normalização total das relações entre os Estados Unidos e Cuba”.

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