Jornalista se recorda do amigo sobre quem os índios podem dizer: “Ele morreu por nós”

FOTO: André Borges e o indigenista Bruno Araújo, morto na Amazônia, em imagem do arquivo pessoal do jornalista | Reprodução Twitter / Twitter/@AndreBorges_JOR

“…foi afastado, justamente por fazer seu trabalho. Deixou as quadras de Brasília, mas seguiu de volta ao Javari, para atuar na defesa dos corubos, dos marubos e maiurunas


Por: André Borges
em seu perfil no Twitter

Num domingo de sol, Bruno Pereira empurrava um carrinho de bebê sobre a calçada de concreto claro que circula o Parque Olhos d’Água. Lugar nobre de Brasília, um refúgio de mata e de pássaros que restou preservado, no fim da Asa Norte. Era 2019.

Eu seguia pela mesma calçada em sentido oposto. Quando vi o Bruno se aproximar, não o reconheci imediatamente. O corpo grande e branco se inclinava pra segurar as alças do carrinho à sua frente, onde levava a filha recém-nascida. Usava chinelos, camiseta e bermuda. Estava feliz.

Nos cumprimentamos com carinho e olhar confidente, como se trocássemos uma senha de acesso a uma amizade nascida três anos antes. E demos um abraço. Fiz uma piada qualquer, perguntando que raios ele estava fazendo no meio dessa cidade.

Era engraçado ver Bruno naquela situação, ao lado de prédios envidraçados, num típico passeio urbano. Nosso ponto de partida havia sido o Vale do Javari, uma expedição que pretendia identificar pontos de presença e invasão da terra indígena dos isolados.

Naqueles dias, seguimos de barco para dentro da floresta, fizemos trilhas por charcos, montamos acampamentos, cozinhamos. E conversamos muito. O Bruno tomava notas em um caderno, fazia marcações, liderava a expedição. Tinha o mapa do Javari em sua cabeça, conhecia cada igarapé, cada curva sinuosa do Quixito, do Ituí, do labirinto líquido que parece manter a gente sempre no mesmo lugar depois de horas de barco rio adentro. No caminho, cruzamos com caçadores e pescadores ilegais, que foram abordados pela equipe e tiveram material apreendido.

Passamos por balsas carregadas de troncos, achamos cartuchos de armas pesadas na mata, pilhas de sacos plásticos de sal usados para conservar carnes. Me surpreendia o conhecimento de Bruno, sua generosidade e a forma simples com que dividia o que sabia, o que havia acumulado e aprendido com os povos indígenas. Avançávamos pela floresta, onde coisas simples, como se sentar para descansar um pouco, não é algo trivial. O solo, além de úmido, é tomado por vida de todo tipo, insetos, formigas. É alívio encontrar um pedaço de tronco onde se possa apoiar.

Por isso, era engraçado – e bom – ver Bruno passeando na cidade. Ele tinha se mudado para a capital federal para liderar, na Funai, as ações de proteção do povo pelo qual sempre lutou. Nas salas da autarquia, ele logo percebeu que, em sua luta, havia sido isolado pelo governo.

Depois de conseguir organizar uma grande missão no Javari, foi afastado, justamente por fazer seu trabalho. Deixou as quadras de Brasília, mas seguiu de volta ao Javari, para atuar na defesa dos corubos, dos marubos e maiurunas.

Deixou o passeio de fins de semana no Parque Olhos d’Água, para lutar pelas crianças do povo matis, as mulheres canamaris, os guerreiros culinas. Bruno deixou nossos olhos n’água. Ficam a sua obstinação, seu exemplo, sua luta.

Siga Urbs Magna no Google Notícias
Comente

Comente

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.