“Crime do Ministério da Saúde chega ao paradoxismo”, diz Azevedo sobre o app ‘TrateCov’ que recomenda cloroquina

20/01/2021 1 Por Redação Urbs Magna

Criada para orientar no diagnóstico de Covid-19, a plataforma destinada apenas a profissionais de saúde, mas com acesso livre, sugere o chamado “tratamento precoce” a pessoas de todas as idades com drogas de efeitos não comprovados

Reinaldo Azevedo escreveu em seu Twitter, na tarde desta quarta-feira (20): CRIME DO MINISTÉRIO DA SAÚDE CHEGA AO PARADOXISMO

O jornalista se refere ao TRATECOV, uma plataforma criada pela pasta destinada apenas a profissionais de saúde, mas com acesso livre, que sugere o chamado “tratamento precoce” a pessoas de todas as idades com drogas de efeitos não comprovados.

Indignado (quem não está não acompanha notícias), Azevedo postou a seguinte mensagem em seu perfil:

“Teste iniciado por Leandro Demori [o direcionamento do aplicativo foi descoberto pelo site The Intercept Brasil] evidencia que crime do Ministério da Saúde chega ao paroxismo: APP indica coquetel de drogas perigosas até para náusea e diarreia em bebês. Aras vai continuar a ignorar? Isso não é autocontenção, procurador. É omissão. Essa rota não tem futuro”.

Relatos de usuários que testaram a plataforma mostram que para diversos perfis de pacientes há a recomendação de tratamento precoce.

O TrateCov traz um formulário no qual o usuário insere dados sobre comorbidades, sintomas e exposição a ambientes de risco. O aplicativo é destinado apenas a profissionais de saúde, mas tem acesso livre.

Em simulação compartilhada em suas redes, a jornalista Mariana Varella, filha do médico Drauzio Varella, alegou ter saído de casa duas vezes e não ter problemas de saúde. Informou ainda ter sentido sintomas leves como fadiga e dor de cabeça. Como retorno, o TrateCOV sugeriu o uso de difosfato de cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, doxicilina e sulfato de zinco – o chamado “kit covid” propagado pelo governo federal.

“Também fiz minha simulação no app TrateCov, do Ministério da Saúde. Afirmei ter ido ao supermercado duas vezes e não ter comorbidades. Sintomas: fadiga e dor de cabeça há 1 dia. Sai com uma receita que inclui 2 antibióticos. É inacreditável”, escreveu.

Já o médico Pedro Opará inseriu dados de uma pessoa imaginária que nomeou como José das Couves. O paciente sofreria de hipertensão, diabetes, insuficiência cardíaca, insuficiência renal e obesidade. Também estaria há dois dias com sintomas como perda de olfato e paladar.

“Vejam o que o aplicativo recomenda, no alto da imagem, para o tratamento do Seu José: kit completo com hidroxicloroquina, Ivermectina e até corticoide, que na fase inicial PODE PIORAR O QUADRO”, escreveu Opará. “Ele tem 63 anos e várias doenças como hipertensão e diabetes, além de doença do coração e insuficiência renal. Mesmo se o kit covid funcionasse (MAS ELE NÃO FUNCIONA) essas doenças contra indicariam seu uso”.

O TrateCov foi lançado em 11 de janeiro pelo ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, durante visita a Manaus. De acordo com o ministério, o aplicativo sugere o diagnóstico por meio de sistema de pontos que obedece “rigorosos critérios clínicos”.

Na última segunda (18), Pazuello afirmou que o governo recomenda “atendimento precoce” e que as expressões podem ser confundidas. Em atos públicos, no entanto, o governo preocnizou o chamado tratamento precoce, baseado em medicamentos cuja eficácia contra coronavírus não é comprovada.

Entidades médicas como a Associação Médica Brasileira (AMB) e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) reforçaram, em nota conjunta divulgada nesta terça (19), que não há evidências científicas sobre ‘”tratamento precoce” para Covid-19.

De acordo com a Revista Época, o desenvolvedor de web Joselito Júnior, de 27 anos, que participa de um grupo que tem investigado o código por trás do TrateCOV, constatou que o algoritmo foi retirado de um template no site https://projectredcap.org/, mas foi alterado.

“É um template normal de código, mas essa parte da cloroquina foi inserida de fora. E claro que foi colocado de propósito. É algo direcionado, foi uma escolha”, afirmou Júnior.

O programador explica que o aplicativo atribui um “score” que mede o risco do paciente. Quando atinge o número seis, ou acima disso, a plataforma vai invariavelmente recomendar o “kit covid” do governo federal.

Para alcançar esse número, basta ir algumas vezes ao mercado ou informar sintomas leves. Para Júnior, é como se o formulário já estivesse com a parte da recomendação de medicamentos preenchida, mas só vai aparecer para o usuário quando um gatilho for acionado, isto é, o score de gravidade.

“O aplicativo não leva em conta idade, peso, nada. Ele sempre vai indicar essa lista de medicamentos. Nós notamos apenas que peso e altura são considerados na hora da dosagem, mas a recomendação desses remédios continua”, disse Júnior.

Publicado no site da pasta em 13 de janeiro, a matéria aponta para, quem quiser, mais informações em: tratecovbrasil.saude.gov.br, mas o link não está mais ativo:

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