‘Cenas da temporada pré-apocalíptica’: “Só está faltando chover merda”, diz Kotsho

20/09/2020 0 Por Redação Urbs Magna

Jornalista do ‘balaio’ relaciona as “desgraça(s) que andam “acontecendo ao mesmo tempo”, no governo Bolsonaro, e diz que “não dá para tratar de um assunto só numa coluna

“A destruição do Pantanal, da Amazônia e do que resta do Cerrado faz parte do programa da coalizão governista, que reúne grileiros, mineradores, madeireiros ilegais e vândalos do agronegócio”, disse Frei Betto no artigo “Brasil em chamas” (Leia a íntegra no final desta matéria), conforme escreveu o jornalista em seu Balaio do Kotsho.

O Brasil é o país que mais preserva o meio ambiente, e alguns não entendem isso. O Brasil está de parabéns pela maneira como preserva o meio ambiente“, disse o presidente Jair Bolsonaro, na quinta-feira.

Um dos dois está mentindo. O frade e o presidente não podem estar falando do mesmo país“, disse Ricardo Kotsho em sua coluna no UOL. Leia a seguir:

É tanta desgraça acontecendo ao mesmo tempo que não dá para tratar de um assunto só numa coluna sobre o que está acontecendo no país neste dia 18 de setembro de 2020, um dia como outro qualquer“, continua o colunista que teve que selecionar “alguns fatos e cenas desta temporada pré-apocalíptica da devastação de um país de 220 milhões de habitantes abençoado por Deus e bonito por natureza, que ficava ao sul do Equador, lembram-se?

* Segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Covid (Pnad-19) divulgados nesta sexta-feira, o desemprego no país bateu novo recorde. A taxa de desempregados aumentou de 13,2% na terceira semana de agosto para 14,3% na quarta semana do mês, atingindo 13,7 milhões de brasileiros, cerca de 1,1 milhão a mais do que na semana anterior.

* Antes da pandemia, 10,3 milhões já passavam fome no Brasil, segundo pesquisa do IBGE realizada entre junho de 2017 e 2018, 3 milhões a mais do que em 2013.

“Só está faltando chover merda!”

Ricardo kotsho

* Com 5.603 focos de incêndio na primeira quinzena de setembro, o Pantanal continua queimando e deve terminar o mês batendo o recorde histórico registrado em 2007. Na Terra Indígena Baía dos Guató, o povo mais antigo da região já perdeu 83% do seu território. Ventos do Centro-Oeste e do Norte estão trazendo fumaça das queimadas para o Sudeste. Há previsão de “chuva negra” para este final de semana em São Paulo. Como dizem os caipiras, “só está faltando chover merda.

* O governo da França comunicou oficialmente que se opõe ao acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul diante do impacto ambiental das Queimadas na Amazônia e no Pantanal e a falta de mecanismos para garantir que os compromissos assumidos contra o desmatamento sejam respeitados. “O desmatamento coloca em risco a biodiversidade e o clima”, disse o primeiro-ministro Jean Castex. O ministro da Agricultura, Julien Denomardie, declarou que, “como está, as coisas são claras: Não ao Mercosul.

“Bolsonaro e Trump estão entre os vencedores do Prêmio IgNobel

Ricardo Kotsho

* Nesta sexta-feira, o avião que levava o presidente para ser homenageado no Mato Grosso por plantadores de soja teve que arremeter ao pousar em Sinop, por falta de visibilidade provocada pelas queimadas. Para Bolsonaro, no entanto, o incidente aconteceu por causa do “mau tempo”. Segundo ele, o Brasil tem apenas “alguns focos de incêndio”.

* Bolsonaro e seu êmulo Donald Trump estão entre os vencedores do Prêmio IgNobel, que aponta os fatos mais irrelevantes ou inusitados da ciência mundial. A homenagem se deve à condução da crise da pandemia do coronavirus por esses dois presidentes. Brasil e Estados Unidos concentram cerca de 405 mil mortes pela pandemia, o que representa 35% das vítimas registradas em todo o mundo.

* A Polícia Federal investiga o uso de verba publicitária do governo Bolsonaro no financiamento de páginas com mensagens antidemocráticas, que defendiam o AI-5, a intervenção militar e o fechamento do Congresso e do STF. Dois filhos do presidente, Carlos e Eduardo, foram chamados para depor.

Bolsonaro pensa que ao negar os fatos eles deixam de existir. E muita gente acredita nessa realidade virtual“.

Ricardo Kotsho

* Em sua live de quinta-feira, vestido com a camisa da Portuguesa de Desportos, o presidente disse que os professores “querem ficar em casa sem trabalhar” e acusou os sindicatos do magistério de serem controlados por “radicais de esquerda”. Enquanto defende a volta às aulas, o governo corta verbas da Educação.

* Entre uma viagem e outra, Bolsonaro gravou um vídeo com o discurso que fará na terça-feira na abertura da Assembleia Geral da ONU, afirmando que a pandemia e as queimadas estão controladas no Brasil. Só no Pantanal, que continua em chamas, já foram devastados mais de 3 milhões de hectares. Ele não se conforma: “Tem críticas desproporcionais à Amazônia e ao Pantanal, né. Califórnia está ardendo em fogo. Na África tem mais focos que no Brasil”.

Bolsonaro pensa que ao negar os fatos eles deixam de existir. E muita gente acredita nessa realidade virtual’. pontua Ricardo Kotsho com sua tradicional afirmação de que é “vida que segue“.

Brasil em chamas’ – por Frei Beto

“Muito antes de a revista “The Economist” qualificar o presidente do Brasil de BolsoNero, eu já havia cunhado a antonomásia. O que não esperava é que os fatos comprovariam a semelhança de atitudes entre o imperador romano, conhecido por tocar lira enquanto Roma pegava fogo, e o principal ocupante do Palácio do Planalto. 

 O Brasil é incendiado pelo descaso do governo, enquanto o presidente ignora o desastre ambiental e econômico, assim como faz com o genocídio sanitário que já ceifou a vida de quase 140 mil vítimas da Covid-19.

 Na primeira quinzena de setembro, houve mais queimadas na Amazônia do que em todo o mês de setembro de 2019. Até o dia 15 foram registrados 20.485 focos de calor no bioma amazônico pelo programa Queimadas do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). No mesmo período do ano passado foram 19.925 focos.

A média é de 1.400 novas queimadas por dia. Nessa época do ano, em que a seca predomina na Amazônia, os desmatadores (latifundiários, mineradoras, garimpeiros, grileiros e empresários do agronegócio) aproveitam para queimar os recursos biológicos derrubados para abrir espaços ao gado, à soja, à exploração de minerais preciosos. 

Segundo a Global Forest Watch, que mantém plataforma online de monitoramento de florestas, o Brasil foi responsável pela destruição de um terço de todas as florestas tropicais virgens desmatadas no planeta em 2019: 1,3 milhão de hectares perdidos.

O governo brasileiro ignora suas próprias leis. Em 16 de julho deste ano, proibiu o uso de fogo na Amazônia e no Pantanal por 120 dias. No entanto, os incendiários agem impunemente e os órgãos de fiscalização são sucateados. O vice-presidente, general Mourão, reclama que algum funcionário impatriota do Inpe deve estar vazando informações… “Há alguém lá dentro (do Inpe) que faz oposição ao governo”, declarou. Falta apenas mandar prender o satélite do órgão que detecta as queimadas. 

Este ano houve aumento de 34% no desmatamento da Amazônia brasileira. E o presidente insiste: “Essa história de que a Amazônia arde em fogo é uma mentira”, declarou em reunião virtual com chefes de Estado da América do Sul (“Folha de S. Paulo”, 16/9, p. B7). 

O fogo se alastra também, sem controle, no Pantanal, uma das regiões de maior biodiversidade do planeta. Já foram destruídos 16% da maior planície alagada do mundo. Ali as queimadas reduziram a cinzas 23mil km2 de riquezas vegetais e animais (área pouco maior que a de El Salvador ou o triplo da área da região metropolitana de São Paulo, onde vivem quase 22 milhões de pessoas em 39 cidades). Foi também devastado o maior refúgio do mundo de araras-azuis, e estão sob ameaça projetos de preservação de onças. São comoventes as imagens exibindo a quantidade de animais mortos por queimadura ou asfixia, ou em busca de água em estradas e cidades.

De acordo com estimativa do Ibama/Prevfogo, em três biomas que cruzam o território sul-mato-grossense – Pantanal, Cerrado e Mata Atlântica – a área atingida pelo fogo já ultrapassa 1.450.000 hectares.

O governo age na contramão da preservação ambiental. Para 2021, cortou os orçamentos dos dois principais órgãos federais de defesa da natureza e fiscalização de crimes ambientais, o Ibama (-4%) e o ICMBio (-12,8%). 

A destruição do Pantanal, da Amazônia e do que resta do Cerrado faz parte do programa da coalizão governista, que reúne grileiros, mineradores, madeireiros ilegais e vândalos do agronegócio. 

O secretário da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Mato Grosso, Flávio José Ferreira, afirmou em entrevista ao “Fórum Café”, dia 15/9, que o Ministério da Defesa tem proibido o Exército de atuar no combate aos incêndios no Pantanal. Bombeiros e voluntários são os principais responsáveis por conter as chamas no bioma. Ferreira também criticou o avanço do agronegócio no Pantanal e disse que o meio ambiente tem sido “desrespeitado” na região há anos.

BolsoNero é mestre em se eximir de culpas. Faz de conta que nada tem a ver com o genocídio da pandemia no Brasil, a invasão de terras indígenas, a interferência na Polícia Federal do Rio para defender os filhos, os milicianos condecorados por seus familiares, os cheques do Queiroz, a alta do preço do arroz, o crescimento do desemprego (13 milhões de trabalhadores) e tantas outras medidas de seu governo que arruínam o nosso país.  

Ao cantar o hino nacional, em vez de proclamar “Se em teu formoso céu risonho e límpido, a imagem do Cruzeiro resplandece”, é mais condizente com a realidade entoar “Sob teu cinzento céu tristonho e enfumaçado, as labaredas das queimadas resplandecem”. 

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