Vergonha de ser brasileiro – texto/poema

Vergonha de ser brasileiro atinge recorde de 47%, disse o Datafolha em jun/2017

Extraído das redes sociais, esta literatura revela a indignação e a força da resistência ao golpe 2016. Um achado valioso da representatividade do pensamento dos brasileiros que souberam identificar de imediato o que de fato estava acontecendo com a democracia e quais suas consequências na soberania nacional.

Vergonha

Eu tenho vergonha da vergonha que não sentem os ‘sem vergonha’, que apoiaram e apoiam o golpe.

Eu tenho vergonha daqueles que, assim como eu, descendem das etnias negra e indígena e, mesmo assim, apoiam a barbárie, a ditadura, em detrimento do respeito e do amor.

Eu tenho vergonha de comemorar a “abolição da escravatura” no dia 13 de MAIO, quando ela: A ESCRAVIDÃO caminha a passos largos e galopantes, livre e dissimulada.

Eu tenho vergonha dos que fingem não enxergar quando o que está em jogo é a barganha; o jeitinho ‘larápio’ e desonesto de ser ‘brasileiro’; de tirar proveito do que não lhes pertencem.

Eu tenho vergonha de precisar brigar pelo que me pertence, pelo que é justo e óbvio. Vergonha da segregação, da herança colonial maldita e torpe.

Eu tenho vergonha da misoginia, do machismo, dos que se corrompem. Vergonha de todos os ‘ismos’ do ‘semvergonhismo’.

Tenho vergonha dos que não cumprem com a palavra quando esta os impõem, impulsionam à pratica da alteridade, do respeito, da justiça, o reconhecimento do valor do outro.

Eu tenho vergonha dos que subestimam à minha inteligência, mas ainda mais vergonha dos que subestimam à inteligência dos ‘iletrados’. Pois, estes sim, são suas principais vítimas. Dormem em berços de espinhos e perigam não acordar.

Eu tenho vergonha da TV que finge homenagear ( no 13 de maio) a GENTE de pele negra, quando esta mesma TV é a protagonista e disseminadora de toda forma de discriminação e preconceitos. Não me queira manipular, eu tenho vergonha. Não me queira subestimar, me cegar. Eu sou fermentação e ebulição de vergonha, a pressa da vergonha, a precipitação.

Eu tenho vergonha dos que não se prestam a abraçar uma causa para corrigir injustiças, porque tal correção implicaria em prejuízos materiais, prejuízo ao status enganoso, falso, digno apenas de piedade.

Eu tenho vergonha dos que partirão e deixarão suas ‘posses’ (que lhes agrega esse tal poder), posses que são frutos de exploração humana e que certamente promoverão guerras aos que lhes herdam o vermelho sangue ‘azul’.

Eu jamais terei vergonha do sangue vermelho que brota dos meus olhos em forma de lágrimas pelos que se doaram, que morreram para que eu hoje soubesse utilizar uma caneta desesperadamente e dizer que tenho vergonha dos que mentem para si mesmos. Mas sinceramente, eu teria muito mais vergonha de não honrar à minha gente, essa gente.

Tenho, sobretudo orgulho e gratidão por queles que abriram horizontes e estradas de esperança por onde ainda posso caminhar, ainda que, solitária ou de braços dados, e ainda que a escravidão se faça notar.

A data 13 de maio comemora a libertação dos escravos. Mas após mais de um século da tentativa de “abolição” desse mal, a escravidão continua.

Lúcia Costa.

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O Operário Em Construção (Poema-Vinícius de Moraes)

O poema ‘O Operário Em Construção’ foi escrito por Vinícius de Moraes em 1956

Lula, quando ainda era o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC Paulista, e o poeta e compositor Vinícius de Moraes durante as comemorações do dia do Trabalhador em 01/05/1979. Na ocasião, Vinícius leu o poema “O Operário em Construção” (no fim da página).

 

O poema descreve o trabalho como base da vida humana; descreve o processo de tomada de consciência de um operário, partindo de uma situação de completa alienação.

Leia o poema no final do post em azul

No nível simbólico Operário em Construção trata de um operário que entra em processo de conscientização individual e resiste à exploração através da palavra “não”. É um dos poemas de lírica comprometida com o cotidiano. O poema inicia com o papel do operário na construção das coisas e o desconhecimento da importância da sua profissão. Narra, em versos, a alienação verificada na multidão que empilha os tijolos com suor e cimento. De repente, o operário constata que ele, um humilde operário, era responsável pelos objetos que estavam em sua mesa e, “tomado de uma súbita emoção”, percebe que era ele quem construía tudo o que existia: “casa, cidade, nação!”. Compreende a força das rudes mãos e a grandeza de ser um operário em construção.

O operário se constitui em uma nova dimensão. A percepção da própria importância na sociedade que construía, a compreensão do significado do exercício de sua profissão… Tudo disposto em poesia, a consciência adquirida, o conhecimento compartilhado como outros operários e a possibilidade de dizer não. O poema contagia. Sente-se libertar a percepção quando o operário começa a notar as coisas, as diferenças de sua vida com a do patrão, comparando pequenos detalhes. Sua consciência política e social amadurece e ele se faz forte em dizer não, apesar das contrariedades e das delações de alguns companheiros. O patrão, sem dar importância, solicita aos delatores que o convençam do contrário. Começam as agressões: cospem em seu rosto, quebram seu braço e ainda assim o operário diz não.

O patrão, verificando que toda a violência sofrida não convenceria o operário, tenta dobrá-lo com a proposta de poder, tempo de lazer e de mulheres, com a condição de que o mesmo abandone o motivo que lhe faz dizer não.
O operário observa a ampla região em volta da construção e vê o que seu patrão não consegue ver: o operário vê casas e tantos objetos, enquanto seu patrão está limitado a visão do lucro. O operário percebe que em tudo há a marca de sua mão e diz “não” à oferta do patrão: “Não pode me dar o que é meu”. O homem, com a amplitude da percepção que adquiriu, sente a enorme solidão dos que compreendem além das aparências, a responsabilidade pela vida dos que padeceram e dos que viverão com esperanças. Constrói-se dentro de um novo perfil de homem, engajado no mundo e consciente de sua participação na história.

O poeta encerra sua grande edificação poética. Vive-se a construção do operário, de sua consciência e da coragem para negar à ordem, quando esta não representa o seu trabalho. No poema (abaixo na íntegra), é possível perceber o momento da tomada de consciência do operário (servo), quando ele se dá conta do poder que tem, da sua capacidade de transformar a natureza. Vê que tudo que existe (“garrafa, prato, facão”) foi feito por ele.

O trecho em que o operário olha sua mão e percebe que não há no mundo coisa mais bela pode, de início, parecer uma contradição, já que de modo geral a mão de um operário tende a ser grossa, rude, cheia de calos; como poderia então ser bela? A beleza que ele vê está além das aparências; ele percebe que em suas mãos está seu poder de modificar o mundo, de transformar a natureza, assim como o servo de Hegel. Quando o operário toma consciência de si entra em outra dimensão (“a dimensão da poesia”). Isso talvez se dê pelo fato de ele agora conseguir perceber a beleza que existe em sua construção e reconhecer a si mesmo nos produtos que cria. Ele vai aos poucos se libertando do jugo do patrão e incentivando os outros operários a fazerem o mesmo, a tomar consciência de sua força, de seu poder de construção; vê que é o verdadeiro dono de tudo que existe, uma vez que tudo é construído por ele.

O patrão, ao se dar conta de tal reviravolta, tenta por todos os meios enfraquecer o operário: através da violência, do suborno… Mas nada consegue, pois o operário vê na sua liberdade o maior dos bens. Vinícius de Moraes marcou sua passagem com um olhar verdadeiro e uma ampla consciência da condição humana e deixou os versos do seu trajeto para os que querem viver mais do que as alienadas aparências possam trilhar em busca de uma vida mais significativa.

O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO (VINÍCIUS DE MORAES, 1956)

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato como podia
Um operário em construção
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento

Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse eventualmente
Um operário em construcão.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma subita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: a gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Nao sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua propria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro dessa compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele nao cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Excercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edificio em construção
Que sempre dizia “sim”
Começou a dizer “não”
E aprendeu a notar coisas
A que nao dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uisque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução

Como era de se esperar
As bocas da delação
Comecaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
– “Convençam-no” do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isto sorria.

Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras seguiram
Muitas outras seguirão
Porém, por imprescindível
Ao edificio em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ver
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Nao vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martirios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construido
O operário em construção

A VACA NO PRECIPÍCIO – Parábola

A vaca no precipício

Um sábio passeava por uma floresta com seu fiel discípulo, quando avistou ao longe um sítio de aparência pobre e resolveu fazer uma breve visita. 
Durante o percurso ele falou ao aprendiz sobre a importância das visitas e as oportunidades de aprendizado que temos, também com as pessoas que mal conhecemos. 
Chegando ao sítio constatou a pobreza do lugar. A casa era de madeira. Faltava calçamento e os moradores, um casal e três filhos, trajavam roupas rasgadas e sujas. 
Ele se aproximou do pai daquela família e lhe perguntou:
– Neste lugar não há sinais de pontos de comércio e de trabalho. Então, como o senhor e a sua família sobrevivem aqui? 
O senhor calmamente lhe respondeu:
– Meu amigo, nós temos uma vaquinha que nos dá vários litros de leite todos os dias. Uma parte desse produto nós vendemos ou trocamos na cidade vizinha por outros gêneros de alimentos e com a outra parte nós produzimos queijo, coalhada e outros produtos para nosso consumo. Assim, vamos sobrevivendo. 
O sábio agradeceu a informação, contemplou o lugar por alguns momentos, despediu-se e partiu. No meio do caminho, voltou ao seu fiel discípulo e ordenou:
– Aprendiz, pegue a vaquinha, leve-a ao precipício ali na frente e a empurre, jogando-a lá embaixo. 
O jovem arregalou os olhos espantando e questionou o mestre sobre o fato de a vaquinha ser o único meio de sobrevivência daquela família. Mas, como percebeu o silêncio absoluto do seu mestre, foi cumprir a ordem. Assim, empurrou a vaquinha morro abaixo e a viu morrer. 
Aquela cena ficou marcada na memória daquele jovem durante alguns anos e um belo dia ele resolveu largar tudo o que havia aprendido e voltar naquele mesmo lugar e contar tudo àquela família, pedir perdão e ajudá-los. 
Assim fez e quando se aproximava do local avistou um sítio muito bonito, com árvores floridas, todo murado, com carro na garagem e algumas crianças brincando no jardim. Ficou triste e desesperado imaginando que aquela pobre família tivera que vender o sítio para sobreviver. 
Chegando ao local, foi recebido por um caseiro muito simpático e perguntou sobre a família que ali morava havia uns quatro anos, ao que o caseiro respondeu:
– Continuam morando aqui. 
Espantado, ao encontrar os familiares, viu que se tratava das mesmas pessoas que visitara com o mestre. Elogiou o local e perguntou ao dono:
– Como o senhor melhorou este sítio e está tão bem de vida? 
E o senhor, entusiasmado, respondeu-lhe:
– Nós tínhamos uma vaquinha que caiu no precipício e morreu. Daquele dia em diante tivemos que fazer outras coisas e desenvolver habilidades que nem sabíamos que tínhamos. Assim, alcançamos o sucesso que seus olhos vislumbram agora.

Companhia de Água recebe poema de cliente reclamando do valor da fatura e empresa responde com poesia

A CAESB – Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal – recebeu um protocolo de reclamação, em sua página eletrônica de seu serviço de ouvidoria, bastante diferente do tradicional: um lindo poema pedindo providências.caesb

O Sr. Luiz Carlos Garcia de 64 anos, que reside sozinho em uma economia residencial de Brasília,  teve seus faturamentos mensais mais recentes calculados em valores muito além de sua realidade de consumo e a última conta chegou ao valor absurdo de R$ 1.150,00. Muito assustado com as quantias que já vinha desembolsando todo mês, não só para a fornecedora de água mas também para bombeiros hidráulicos que não solucionaram seu problema, Garcia resolveu reclamar através de um protesto brando. Escreveu um longo e belo poema onde expôs todas as dificuldades que vinha sofrendo valendo-se de seu talento para as letras. E, pasmem, a empresa respondeu com outro poema com qualidade  literária semelhante através do qual relatou detalhadamente todo o processo de inspeção das instalações na residência do reclamante. O caso foi encerrado com a solução da queixa do poeta, a qual foi recebida e conduzida por Aline Santos de 46 anos, culminando com a redução da fatura para R$ 127,00.

Entenda ao ler os dois poemas:

Luiz Carlos Garcia:

“Senhor Presidente
Venho mui respeitosamente à presença de vossa senhoria para apresentar e requerer o que se segue:

Venho à vossa senhoria / externar o que me aborrece / se não pode perseverar / aquilo que me entristece
O hidrômetro que marca e conta / a água que aqui consumo / é como fumaça que espalha / de um cigarro que não fumo
Desde que foi instalado / o novo tecnológico instrumento / a cada leitura nele feito / perco até os movimentos
Preocupado com a conta / que sempre me mostra aumento / até contratei uma empresa / que se diz caça-vazamento
Na verdade o que queria / na lucidez do momento / era encontrar uma forma / para estancar o tormento
E um trabalho dedicado / puseram-se os homens a fazer / na busca de saber se o indicado / eles poderiam resolver
Depois de muito procurar / em canos, válvulas e torneiras / disseram-me algo encontrar / que explicasse d’água a peneira
Puseram-se então a falar / na rede, este trecho é o problema / se os canos daqui, for trocar / resolvemos o seu dilema
Cem metros de cano comprei / cola, lixa e conexões / depressa do comércio voltei / atendendo as orientações
Fizeram toda tarefa / da rede modificar / depois foram-se embora / p’ra outras casas visitar
Grande foi a minha surpresa / que nem sei como contar / fui consultar o hidrômetro / e ver o que ele estava a marcar
Quando o olhei atentamente / com tudo na casa fechado / lá estava o renitente / a se mover, desesperado
Acreditar? já não podia / naquilo que ali, eu via / restou-me naquela agonia / me apegar n’alguma magia
Aqui moro sozinho / sem filhos, mulher, empregado / não lavo roupas, nem cozinho / só no banho, o líquido é usado
Nem para beber uso água / que da rede aqui deságua / das minerais me abasteço / e disso não guardo mágoa
Também não recebo visitas / que a água pudessem consumir / por isso procurar respostas / é no que preciso insistir
Minha casa é bem pequena / apenas cem metros quadrados / nela só faço dormir / e preservar meus guardados
Não levo os jardins a regar / nem carros eu deixo lavar / calçadas com a água esfregar / por onde esta água escoar?
Faxino a casa com balde / e um pano p’ra no chão passar / diz minha consciência em alarde / a água é p’ra se economizar
Uma coisa é verdade / que aqui preciso indagar / como pode uma só pessoa / tanta água no mês gastar?
Um mistério se formou / se esta água aqui entrou / se dela pouco se usou / a maior parte evaporou?
A vários vizinhos perguntei / e a pessoas que conheço: / da água que consomem por mês / na conta vem qual o preço?
Quando minha conta os mostrei / consternação demonstraram / ao sentir o quanto assuste, / procure a Caesb, falaram
Até mesmo em casas grandes / de famílias numerosas / os valores lançados nas contas / não são de montas onerosas
Em outros tempos diria / quando a rede era antiga / mesmo achando água cara / a conta era bem mais amiga
Depois dessa rede mudada / p’ra outra que diferença não vi / me chega a conta inusitada / a cobrar o que não consumi
Recibos passados eu junto / para sustentar o que escrevo / pois como um bom cidadão / sempre pago o que devo
A Caesb é empresa séria / não há dúvidas que eu levante / então nesta minha história / o hidrômetro é o meliante
Sei que não posso acusar / se provas me estão a faltar / mais se a suspeição está no ar / é preciso investigar
Peço a vossa senhoria / que mande me socorrer / pois se a conta assim ficar / de infarto posso morrer
Com licença, peço aos peritos / dessa Companhia honrada / para o indivíduo estudar / e esta situação aclarar
Com suas técnicas e instrumentos / sobre o dito cujo, aplicados / saberemos se seu trabalho / é correto ou é viciado
Se inocente estiver / desculpas já devo pedir / mais recolhido deverá ser / se nele a culpa recair
Se comprovado, o erro for / de quem o consumo media / devolva-me com prontidão / o que paguei e não devia
Ou se preferir modo outro / proponho a vossa senhoria / descontar o tal valor / quando faturar a Companhia
Pois se assim não for feito / outro caminho não há / se não o de ir a justiça / o meu direito reclamar
Rogo vossa senhoria / uma providência tomar / pois não é justo essa conta / eu ter que continuar a pagar
Assim, deixo o meu pedido / em forma de poesia / se escrever é uma arte / que me enche de alegria
E, antes que se faça tarde / neste tempo, o que pronuncia / antecipo meus agradecimentos / junto a vossa senhoria
Como nos ensina a lição / que nos vem d’antigamente / despeço-me no último verso / com um gentil, cordialmente.” 
Caesb
“Sr. Luiz Carlos Garcia
Em resposta à sua manifestação / Sob o n.º 1.723/2016 protocolada / Na qual nos chamou atenção / O brilhante uso da nossa língua falada
Vimos pelo presente documento / Apresentar os resultados apurados / Na esperança de que com esse intento / Encerremos os seus desagrados
A fim de verificar / A situação apresentada / Pusemo-nos a vistoriar / As instalações internas afetadas
E eis que ficou constatado / A ocorrência de um vazamento / Comprovadamente sanado / No mais curto espaço de tempo
Para assegurar um fornecimento / Contínuo, lhano e escorreito / Fora instalado um equipamento / De precisão, em seu conceito
E ao fim de 58h constantes / Registrou o importante instrumento / Não haver na rede pressões variantes / Que provocassem um derramamento
Desta forma, concluímos que o vazamento / Ocorrido em sua residência / Tratou-se de um fortuito acontecimento / Lamentável em sua essência
E, atendendo a Resolução da Adasa / Que norteia os procedimentos desta Casa / Foram concedidos os descontos possíveis / Aos casos de vazamentos imperceptíveis
Estão creditados para os próximos faturamentos / Valores resultantes das revisões das contas / Limitadas a dois consecutivos eventos / Com prazo de 12 meses para nova remonta
Mas sabendo dos hábitos conscientes / Por V. Sª praticados / Certamente não será recorrente / O evento outrora cessado
Pessoalmente quero aqui registrar / Minha admiração e meu mais profundo respeito / Posto que, lamentavelmente, não é comum encontrar / Quem faz do uso da palavra um belo feito
Compartilhando da mesma paixão / Me despeço com leniência / E digo com admiração / Receba minha reverência”
Gentileza Gera Gentileza, não é mesmo?

A Política brasileira refletida na música de Cazuza e Renato Russo

Que País é Esse? Brasil.
montagemcazuzarenato

Até hoje vigora a discussão sobre aquele que teria sido o mais proeminente e representativo poeta da década perdida, os anos oitenta.
A questão ainda é tema de debate em blogs, comunidades virtuais, e vira e mexe a gente se depara com um reply desses no twitter: Cazuza ou Renato Russo?
Fácil, fácil a resposta: nenhum deles somente, ou seja, os dois juntos.
Os dois representam a completude de um período conturbado de reconstrução democrática do Brasil: dúbio como teria que ser, antagônico a si próprio e contraditório pra todo sempre.
Enquanto um questionava: Que país é esse? O outro dava a resposta: Brasil.
Um se achava bonito, era sedutor, de autoestima invejável, expansivo e de poesia direta: “Raspas e restos me interessam”.
O outro se achava feio, era introspectivo, complexado, preferia curtir os dias de chuva e assim se definia numa de suas canções mais líricas: “Acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto”.
Cazuza diz ter ficado louco quando Renato Russo surgiu no cenário da música brasileira: “O que é isso?! Que loucura! Esse cara está dizendo algo que eu quero dizer. Quero falar da minha geração”. Diz ter feito “Brasil” com certa “inveja cultural” de “Que país é esse?”.
Na tentativa de conciliar os talentos, um dia Renato Russo e Cazuza se propuseram uma parceria.
Não deu certo.
Cazuza havia mandado a Renato uma letra chamada “A orelha de Eurídice”.
Renato foi categórico: “O que é isso Cazuza? Uma letra que fala sobre orelha? Jamais vou fazer uma música sobre isso”.
Cazuza, na gíria carioca, teria respondido “Qualé Renato? Eu adoro uma orelha, vamos tentar!”
A parceira inconciliável terminou por aí. Mas a admiração mútua nunca teria acabado.
Perto do fim do calvário público do colega de geração, Renato Russo compôs “Feedback Song for a Dying Friend” (Canção retorno para um amigo à morte) uma canção de despedida em inglês. Além disso, fez uma bela inserção de “Faz Parte do Meu Show” em uma apresentação da Legião no Estádio das Laranjeiras, um dia após falecer o compositor de “O Tempo não Para”.
Pra tentar resumir o placar do jogo, costumo dizer que Cazuza deixou canções livres, sem se ater a um estilo musical predileto. Não era apenas um cantor de rock. Cultivava uma linha mais direta na poesia, era meio bossa nova, meio rock´n roll, mas nem por isso se tornara tão ou mais cativo quanto o rival de Brasília.
Renato Russo, paradoxalmente sendo “mais difícil”, vendeu mais, e conseguiu criar literalmente uma religião em torno de sua banda, idéia que abominava. Renato não deixou apenas canções, mas uma espécie de código quase bíblico a ser decifrado na leitura ininterrupta dos discos da Legião, do primeiro, Legião Urbana (1985) ao último “A Tempestade ou Livro dos Dias” (1996).
Há quem diga que até a seqüência do disco póstumo da banda, “Uma Outra Estação” (1997), Renato deixara alinhavada para os remanescentes da Legião apenas cuidarem de detalhes de produção.
Ambos, Cazuza e Renato Russo, morreram de complicações decorrentes da AIDS. Um aos 32, outro aos 36. Como se seguindo a sina do sonho de democracia que tanto questionaram: morreram cedo demais.
Nos seus últimos dias, um optou por mostrar a cara, assim mesmo como dizia a letra de sua música. O outro, não negou sua natureza, mergulhou no seu próprio mundo e preferiu deixar o recado nas entrelinhas do seu último disco em vida: “Hoje a tristeza não é passageira, hoje fiquei com febre a tarde inteira”. Nesse ponto nenhum deles foi incoerente, todos foram verdadeiros.
A vida de Cazuza já virou filme, de grande sucesso, com algumas passagens obscuras, com referências vetadas pelos pais do poeta, a exemplo do relacionamento de Cazuza com Ney Matogrosso, que ao gravar “Pro Dia Nascer Feliz” teria sido fundamental para o estouro do então desconhecido Barão Vermelho.
Já a trajetória de Renato Russo promete invadir as telas do cinema em 2010, com o longa “Somos tão Jovens”, que pretende retratar o percurso do “Trovador Solitário” pela jovem Brasília da década de 70 até o estrelato daquela que ainda hoje é considerada a maior banda de rock da história do país, a Legião Urbana.
Quase duas décadas depois de encerrado o ciclo da geração coca-cola, hoje se percebe mais claramente que não há de fato “o porta-voz” de uma geração, isso porque aquela geração nunca teve uma voz bem definida.
Era tudo o que poetas como Renato Russo e Cazuza, burgueses sem religião assumidos, em contraponto ao adorno exagerado da Tropicália, tinham a dizer sobre si mesmos, mais como o reflexo de uma coletividade sem alma, que propriamente com a pretensão de retratar um país tido como tropical. E talvez por isso mesmo acabaram dizendo mais.
Nas palavras de Renato Russo “Monstros de nossa própria criação”. Nas palavras de Cazuza “Uma geração sem ideologia”.

Samuel Carvalho Marinho é contador e servidor público federal.
Colabora com crítica musical no blogue do ed wilson

Fome e Poesia

fome e poesiaHá, neste mundo, alguma alma etérea o bastante capaz de se desenlaçar do objeto físico e perceber que há poesia (se é que esta ainda resta) em todas as coisas e em qualquer tempo que desejar?

Seria mais sensato mudar o foco da argumentação, afinal a sensação de poesia advém de uma percepção, em allegro, de substâncias invisíveis aos olhos mas percebidas pelo espírito e benéficas à ele. Se não temos tal faculdade – a de um sentido evoluído que nos fornece uma pluralidade de visões mentais -, seremos, ainda, aqueles mesmos primatas primordiais que inauguraram a humanidade; aqueles que desconheciam este poderoso sistema social do qual fazemos parte – cada qual com sua restrita função – e que, em seu predadorismo, se limitavam a ter sensações de fome, sede, frio e dor sendo dependentes diretos dos alimentos fixos nas vegetações ou em movimento livre pelos ares, campos, rios ou mares de seu habitat.

Basicamente, todos tinham o mesmo papel: caçar; sobreviver. E a partir de algum momento em que isso ficou muito fácil, a imaginação começou a trabalhar os cérebros hominídeos. Desde então, evoluímos e fizemos a história como a conhecemos. Muitos de nossa raça se tornaram célebres; notórios. E toda a potencialidade infinita e inimaginável do ser humano fez surgir culturas diversificadas entre os povos da Terra. Parecia que não havia limitações para a criatividade. Toda a arte, como a conhecemos, é o próprio enredo desta evolução.

Mas o tempo avançou tanto e tudo se transformou. Não temos que caçar; sujar nossas mãos com sangue, e quando comemos um hambúrguer temos a sensação de que é algo saído de uma máquina que nada tem a ver com nossa fome. É status puro. A desnutrição é um assunto sério em muitos corpos sociais, mas para muitas sociedades privilegiadas não tem o menor sentido. Pois aí está! Um sentido é substituído por outro tão logo o anterior esteja saciado de nosso desejo. E se o estômago não padece, seu dono nem se apercebe de sua existência fisiológica dando vaga, nas suas sensações mentais, aos sentidos criados na esfera das coisas amorfas, intácteis.

Vila Guimarães (in text color)

 Vila, Guimarães, Pavuna, Rio de Janeiro (1977)
 


Vila GuimarãesVila Guimarães
De lá do céu eu vi você
Teu corpo morto de vício
Inerte
Vi lá um lobo
E uma ovelha de mãos dadas
Visualizando bolhas
No ar
Vila Guimarães
Quero sentir o frio das geleiras
E o calor dos cometas
Sei lá