Hugo Motta orquestra estratégia de protagonismo legislativo em agendas sociais do governo
Brasília (DF) · 20 de fevereiro de 2026
Em um movimento calculado para reverter desgastes recentes, a Câmara dos Deputados tem se posicionado à frente de iniciativas emblemáticas do governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), buscando reconquistar simpatia popular em um ano marcado por eleições municipais e preparativos para 2026.
O principal artífice dessa articulação é o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), que, após enfrentar intensa campanha nas redes sociais que o rotulou como “inimigo do povo”, antecipa o Planalto em temas de forte apelo social e eleitoral.
O caso mais emblemático é a proposta de extinção da escala 6×1 — seis dias de trabalho por um de folga —, bandeira histórica da classe trabalhadora que o governo pretendia apresentar via projeto de lei em regime de urgência.
Motta despachou para a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) a PEC 8/2025, de autoria da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), apensada à PEC 221/2019, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG).
Ele declarou o tema prioridade absoluta de sua gestão, com expectativa de votação até maio.
“Vamos ouvir todos os setores com equilíbrio e responsabilidade para entregar a melhor lei para os brasileiros. O mundo avançou, principalmente na área tecnológica, e o Brasil não pode ficar para trás”, postou Motta em suas redes.
A iniciativa foi interpretada nos bastidores como tentativa de capturar os holofotes de uma pauta que fortalece a narrativa petista junto aos trabalhadores, especialmente porque PECs aprovadas não exigem sanção presidencial.
A estratégia gerou tensão sutil com o Palácio do Planalto. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), defendeu a via legislativa governista por razões de celeridade: “Trata-se de celeridade. […] No nosso entendimento, hoje, um projeto de lei em regime de urgência garante mais rapidez para que isso seja aprovado”, afirmou, conforme O Globo.
🚨ATENÇÃO: Guilherme Boulos Fala sobre escala 6 x 1 e faz duras críticas a um segmento da esquerda, que segundo ele chamaria de um segmento academicista ou lacrador
— Pesquisas Eleições (@EleicaoBr2026) February 9, 2026
🗣️"Sabe o que o Lula vai fazer no carnaval? Vai botar um projeto de lei com regime de urgência pelo fim da 6×1.… pic.twitter.com/mOcdBpeumo
Uma reunião agendada com Lula, Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais), Boulos e Luiz Marinho (Trabalho) foi adiada a pedido do próprio Motta.
O padrão se repete em outras frentes. Na regulamentação do trabalho por aplicativos, Motta priorizou projeto já em tramitação, relatado pelo deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE), em vez de aguardar o grupo de trabalho criado por Boulos.
Na segurança pública, escalou o bolsonarista Guilherme Derrite (PP-SP) como relator do PL Antifacção — decisão que irritou o governo e levou Gleisi Hoffmann a pedir troca —, e manteve Mendonça Filho (União Brasil-BA) na relatoria da PEC da Segurança Pública, que o opositor pretende enriquecer com redução da maioridade penal.
O pano de fundo é o desgaste de 2025. Durante a tramitação da chamada PEC da Blindagem, que ampliava proteções a parlamentares em investigações, uma campanha orquestrada por setores da esquerda — com participação ativa de Boulos, então deputado — rotulou Motta e aliados como “inimigos do povo”.
O mote ressurgiu em dezembro, na discussão do projeto de dosimetria de penas para condenados pelo 8 de janeiro.
Motta reagiu à época acusando o governo de fomentar “radicalização social”, episódio que deixou marcas na relação entre Executivo e Legislativo.
O presidente da CCJ, Leur Lomanto Júnior (União Brasil-BA), aliado de Motta, reconheceu a dinâmica: “É um tema extremamente popular, é natural que haja alguma disputa de protagonismo nesse processo”. Ele adiantou que definirá relator — tendência é nome do Centrão — após conversa com o presidente da Casa na próxima semana.
A manobra de Motta reflete o cálculo político em Brasília: em ano eleitoral, visibilidade em pautas populares pode mitigar a imagem de um Congresso historicamente mal avaliado e fortalecer o Centrão como interlocutor indispensável ao governo.
Aliados do Planalto admitem, nos bastidores, a disputa subliminar, mas evitam confronto aberto para não comprometer a base de apoio necessária às votações de interesse do presidente Lula.

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