Bolsonaro: “Só papai do céu me tira daqui, mais ninguém, eu sou imbroxável, vão ter que me aturar”

11/01/2021 0 Por Redação Urbs Magna

Para especialistas, “Bolsonaro está construindo um discurso para contestar sua eventual derrota nas urnas, como Trump”. Afirmação sobre permanência no cargo foi feita a apoiadores após recentemente dizer que “sem voto impresso em 2022, teremos problema maior que os EUA”.

Imagem reprodução

“Vocês não sabem o tamanho da minha paciência. Eu sou imbroxável, tá ok? Então, vão ter que me aturar. Só papai do céu me tira daqui, mais ninguém”, afirmou o presidente Jair Bolsonaro na tarde desta segunda (11) a apoiadores:

Trecho do vídeo postado no Canal do YouTube ‘Foco do Brasil

Em matéria do Correio Braziliense, especialistas explicam as razões do voto impresso: “ataque às urnas eletrônicas constitui uma estratégia para tumultuar a disputa de 2022, além de indicar um retrocesso. Em 2020, campanha nas redes sociais contra o atual modelo superou a de 2014, ano de eleição presidencial”, diz o jornal.

Recentemente, após a invasão ao Capitólio por apoiadores de Trump, derrotado por Joe Biden, o presidente Jair Bolsonaro disse que “sem voto impresso em 2022, teremos problema maior que os EUA”.

“O voto impresso foi motivo das maiores roubalheiras eleitorais. Na República Velha, tinha até recibo, o que deu origem ao voto de cabresto”, afirma Miro Teixeira.

O ex-deputado federal, que é advogado constitucionalista, estudioso dos temas eleitorais e um dos constituintes de 1988, diz que as críticas do presidente Jair Bolsonaro ao sistema eletrônico não se sustentam nos fatos e podem resultar num retrocesso de mais de 100 anos.

Miro ainda lembra que a Lei 426, de 7 de novembro de 1896, principalmente no seu artigo 8º, abriu caminho para as fraudes eleitorais sistemáticas.

Com a ortografia da época, diz o seguinte:

“Art. 8º Será lícito a qualquer eleitor votar por voto descoberto, não podendo a Mesa recusar-se a aceitá-lo.

Paragrapho único. O voto descoberto será dado, apresentando o eleitor duas cédulas, que assignará perante a Mesa, uma das quaes será depositada na urna e a outra lhe será restituído depois de datada e rubricada pela Mesa e pelos fiscaes.”

A citada lei entrou em vigor na interinidade do vice-presidente Manoel Victorino Pereira, que substituiu Prudente de Moraes, que havia se licenciado do cargo para fazer uma cirurgia.

A legislação eleitoral da República Velha foi um dos motivos da Revolução de 1930.

Segundo Miro Teixeira, depois de 1945 (Segunda República) e mesmo na Nova República, apesar dos avanços, as fraudes continuaram a existir, principalmente na hora de fechar o mapa de votação das seções eleitorais.

“Em 1978, tive 536 mil votos para deputado federal, 30 mil em Nova Iguaçu. Anos depois, um colega me relatou que na verdade foram mais de 70 mil votos. Com a urna eletrônica, isso acabou”, avalia Miro.

O sociólogo Elimar Pinheiro, professor da Universidade de Brasília (UnB), destaca dois aspectos da questão. O primeiro é a volta do coronelismo, fenômeno arraigado na cultura política nacional.

“Quando fui fiscal eleitoral, anotei sete formas de ludibriar o resultado da eleição com o voto impresso. A mais tradicional é levar o voto já anotado para a urna e sair com uma cédula em branco, para entregar ao cabo eleitoral. Imagine isso com as periferias tomadas por traficantes e pelas milícias”, argumenta Pinheiro.

O segundo ponto a considerar, segundo o sociólogo, é a narrativa golpista:

“Bolsonaro está construindo um discurso para contestar sua eventual derrota nas urnas, como Trump. Nos Estados Unidos, isso fracassou porque não teve apoio dos militares. Aqui, Bolsonaro encheu o governo de militares e não perde uma formatura ou qualquer outra solenidade militar, para ter apoio armado da tropa, independentemente da posição dos generais”, observa.

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