Bolsonaro – o Mito da Caserna, Guedes – a cloroquina das finanças, e os escombros que o vírus revela, na visão de Reinaldo Azevedo

10/04/2020 2 Por Dino Barsa

Reinaldo Azevedo publicou um excelente artigo na Folha desta sexta-feira (10) em que analisa os erros do Governo Bolsonaro, em especial os do próprio presidente, na condução desta grave crise que o país enfrenta, a qual tem a particularidade de envolver a Saúde, a Política e a Economia em simultaneidade inacreditável.

Projeção de imagem, do grupo Projetemos, de Bolsonaro dentro do coronavírus em prédio do Recife / No detalhe Reinaldo Azevedo

Azevedo inicia comentando que uma citação (sem citá-la no texto mas a transcrevemos logo abaixo) de Luiz Henrique Mandetta, no dia em que quase foi demitido, confundiu a todos e, novamente em especial, o próprio Bolsonaro.

O ministro disse: ‘Esse final de semana foi de muita reflexão para todos. No sábado eu não fiz a coletiva (de imprensa) justamente para sair um pouco de noticiário, eu achei que o da sexta já tinha sido suficiente. Fomos cada um ler um pouco. Eu falei leiam, leiam outros livros. Eu fui ler o Mito da Caverna, que é um dos diálogos de Platão, que eu tinha lido aos 14 anos pela primeira vez e já li umas 20 até hoje e não consigo entender, continuei sem entender‘.

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Sobre esta fala de Mandetta o colunista da FSP acrescentou que era “biscoito fino demais para a patuscada em curso“. E toda a comunidade antenada com a política nacional percebeu exatamente isso, tanto que o humorista Marcelo Adnet não perdoou e postou em seu perfil no microblog Twitter um vídeo em que caracterizou, hilário, a compreensão letárgica do presidente sobre o assunto, e até exagerando na provável atribuição, por Bolsonaro, da autoria do título do livro de cabeceira do ministro ao cantor Toni Platão:

Na sequência, Reinaldo Azevedo destaca trecho do pronunciamento de Bolsonaro: “Tenho certeza de que a grande maioria dos brasileiros quer voltar a trabalhar. Essa sempre foi minha orientação a todos os ministros, observadas as normas do Ministério da Saúde.“. E sobre este discurso o jornalista diz que “uma coisa (voltar ao trabalho) exclui a outra (‘normas’ do ministério). É esperteza rasa.

É só um modo de tentar se distanciar da montanha de cadáveres. Aproveitou a fala para desfraldar a bandeira da cloroquina e assumir a paternidade das medidas compensatórias em curso. Nem horizonte nem direção. Nos estados, os leitos de UTI vão se apinhando, e a Covid-19 ainda mal visitou os pobres. Não obstante, os governadores são fustigados por milícias verdadeiramente criminosas nas redes sociais.“, diz o colunista que continua na transcrição a baixo:

Como se chegou a esse ponto? Ora, Bolsonaro venceu porque teve mais votos. Fez-se um candidato viável com seu antipetismo estridente, em aliança informal com a Lava Jato, e dois trunfos ditos infalíveis: Paulo Guedes, a cloroquina do mundo das finanças, e o Partido Verde-Oliva.

Durante a campanha eleitoral, em conversas com empresários e outros integrantes da elite econômica, ouvi mais de uma vez que o escandaloso despreparo intelectual de Bolsonaro tomava a conversa: ‘Fique tranquilo! Os militares saberão contê-lo’. Havia também a crença de que eles assegurariam a qualidade técnica da gestão. É mesmo?

As Forças Armadas, e o Exército em particular, têm certa ambição de tutela da sociedade que vai além do que lhes garante o artigo 142 da Constituição. A desordem politicida provocada por Sergio Moro e companhia, sob o pretexto de caçar e cassar corruptos, despertou o sentimento adormecido da ‘pátria ferida em sua honra’, a pedir, então, uma solução fora da política.

Bolsonaro, um formidável vazio de ideias habitado por insultos e anacolutos, abria as portas para a missão salvacionista. Mais uma vez, os corruptos estavam na mira, e a extrema direita se encarregou de ressuscitar a ameaça comunista. Estavam dados os motivos morais para uma nova restauração, como em 1964, mas, desta feita, por intermédio das urnas. Como se isso pudesse existir.

O Mito da Caserna tentava um processo de aggiornamento, com a possibilidade, desta feita, de tutelar também um presidente eleito. Ou capitão não bate continência para general? Bolsonaro sabe que não contará com os militares para o sonhado autogolpe. Mas é mentira que esteja sob vigilância dos generais da razão.

Eles o aconselharam, sim, a não demitir Mandetta, mas o presidente manteve o ministro no cargo porque quis. E porque é o que recomenda o sinistro gráfico dos mortos. Nem tutela nem qualidade de gestão. Militares e Guedes, as duas âncoras garantidoras de Bolsonaro, foram obrigados pelo vírus a se ver face a face e a acertar contas com a mais implacável de todas as verdades reveladas: os fatos. Dada a crise, foram tomados pela paralisia e pela perplexidade.

Está marcada para a próxima segunda (13) a votação no Senado da chamada PEC do Orçamento de Guerra, aprovada na Câmara no dia 3. Fornece ao governo os instrumentos econômicos, técnicos e jurídicos para responder às várias frentes da crise. Antes dela, só havia escuro.

Trata-se de um instrumento originalmente pensado pelo economista José Roberto Afonso, muitos milhares de quilômetros distante do governo. Ele o debateu originalmente com o ministro Gilmar Mendes, do Supremo. Este, por seu turno, procurou Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, que mobilizou seus pares.

Paulo Guedes e os militares enxergavam não mais do que sombras na caverna. Bolsonaro vituperava contra o mundo. Todos eles sob os escombros do Mito da Caserna.

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