Ator Frédéric Pagès se “autoproclama” presidente da França e “reconhece” Zé de Abreu no Brasil

10 10-03:00 março 10-03:00 2019 1 Por Redação Urbs Magna
Ator Frédéric Pagès se “autoproclama” presidente da França e “reconhece” Zé de Abreu no Brasil

A brincadeira do ator brasileiro José de Abreu parece ter atravessado o Atlântico. Neste domingo (10), o ator, cantor e jornalista francês Frédéric Pagès se “autoproclamou” presidente da França, postando uma foto com a faixa presidencial de seu país, que rapidamente viralizou nas redes sociais.

Não é a primeira vez que um ator francês aspira ao Palácio do Eliseu: nos anos 1980, o famoso Coluche quase chegou lá, mas desistiu no meio do caminho, uma história emblemática da cultura contemporânea do país, que marcou uma geração de franceses.

Pagès declarou “oficialmente” apoio ao “presidente autoproclamado do Brasil”, José de Abreu, em sua página no facebook, após sua postagem inicial [veja ao fim da matéria o post original do ator francês] :

“Cher (Querido, em português) président Zé de Abreu, enquanto Presidente autoproclamado da República Francesa, ato inspirado por você, eu que sou um apaixonado pelo Brasil, venho por meio deste, com a convicção de que represento e expresso o sentimento da imensa maioria do povo francês, reconhecê-lo oficialmente como representante único e legítimo desta bela nação brasileira”.

O ator brasileiro, que disse ironizar com seu gesto o presidente autoproclamado da Venezuela, Juan Guaidó, declarou à RFI que havia apreciado a homenagem: “Sim, eu vi. Foi uma surpresa muito agradável. Fiquei muito feliz com esse apoio internacional. Amigos meus franceses e brasileiros, que moram na França, têm acompanhado em sites franceses”.

Pagès tem uma longa relação com o Brasil. Em 1979, segundo o jornal O Globo, ele viajou a bordo de um cargueiro em direção ao país, inspirado pela música e literatura brasileiras. Segundo a reportagem, Pagès se inspirava na figura do escritor franco-suíço Blaise Cendrars, amigo dos escritores modernistas brasileiros Mario e Oswald de Andrade, na década de 1920.

Pagès, que também é músico afirmou ao Globo que teve contato na ocasião com uma gravação de “Garota de Ipanema”, com Stan Getz, Astrud e João Gilberto e Tom Jobim. “Vinis brasileiros eram difíceis de achar na França, mas ouvi Sergio Mendes e achei tudo fascinante”. O francês chegou a produzir shows do multi-instrumentista Hermeto Pascoal, de quem é fã assumido, na Europa.

Brasilianista orgulhoso, Pagès  escreveu sobre a cultura brasileira para diversas publicações importantes na França, como as revistas “Télérama” e “Les inrockuptibles”. O ator, cantor e jornalista francês dirigiu a montagem de “Récits du sertão” (“Histórias do sertão”), baseado em textos de Guimarães Rosa, no Centro Pompidou, em Paris. Em 2012, Pagès idealizou e ministrou em Diadema, no estado de São Paulo, a Oficina de Literatura e Hip-hop, visando incentivar a leitura de textos da literatura brasileira em jovens músicos de hip-hop.

Neste domingo (10), em seu post , ele diz: “Domingo tranquilo, estou em casa, folheando revistas, um pequeno tour no facebook e vejo a grande confusão da política brasileira. (…) Mas olha, o Zé de Abreu, (ator de telenovelas e antigo militante de esquerda), se autoproclamou Presidente da República e ficou instantaneamente mais popular que ‘o outro’ palhaço de serviço. E, se para ser útil, eu também me autoproclamasse presidente da República Francesa?”, pergunta Pagès, que diz reconhecer “instantaneamente” o “presidente Abre”, e apresenta seu “programa de governo”, recuperando alguns antigos slogans de Maio de 68. Uma avalanche de internautas brasileiros comentou na postagem, a maioria deles apoiando a decisão de Frédéric Pagès.

Coluche e a primeira investida de um ator francês ao Palácio do Eliseu

Mas Frédéric Pagès não foi o primeiro ator francês que vislumbrou a possibilidade de se tornar presidente da República na França. Muito famoso no país, irredutível, crítico e sem papas na língua, o ator cômico Coluche (1944-1986) deflagrou uma enxurrada de apoio à sua “candidatura”, na véspera da eleição presidencial de 1981.

Em seus espetáculos, o sempre crítico Coluche gostava de evocar os defeitos dos franceses.Getty Images/Francis Apesteguy

A candidatura de Coluche era, a princípio, uma piada, mas a iniciativa se torna séria quando as pesquisas começam a lhe atribuir mais de 16% das intenções de voto. A partir desse momento, várias pressões começam a ser exercidas sobre o comediante, incluindo ameaças de morte, para que este desista de se apresentar no pleito. Coluche anuncia finalmente a retirada de sua candidatura em 16 de março de 1981, alegando, no entanto, ter recebido assinaturas o suficiente para que sua candidatura fosse validada.

Até hoje na França, a desistência do ator à eleição presidencial de 1981 é considerada um mistério. Mas uma carta inédita de Coluche, publicada pelo jornal Le Monde no dia 1° de março de 2019, trouxe novos elementos sobre o episódio. No documento, o célebre ator francês, muito engajados em causas sociais, relata em detalhes as ameaças de morte e declara que “todos que tentaram me apoiar foram demitidos, estou proibido no rádio e na televisão. (…) Espero que um dia a França terá um governo que cuide mais dos franceses do que dos interesses de sua família e de seus amigos. (…) Que os jovens possam andar na rua sem que a polícia os agrida”.

Coluche fazia referência a um episódio específico quando expôs numa rádio francesa um escândalo que implicava o ex-presidente Valéry Giscard d’Estaing e o ex-Imperador da África Central, Bokassa, o chamado “caso dos diamantes”. Coluche foi imediatamente demitido da rádio RMC, onde trabalhava, e se tornou persona non grata no Palácio do Eliseu. Mas na sequência da desistência de sua candidatura, Coluche passa a apoiar publicamente François Mitterrand, do Partido Socialista, que será eleito presidente em 10 de maio de 1981.

Dino Barsa para o Et Urbs Magna via RFI

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