“Um presidente tem que cuidar da população de seu país”, disse Jean Wyllys no exílio em Berlim, cuja decisão “foi um recado político ao mundo”

20/02/2019 0 Por Redação Urbs Magna
“Um presidente tem que cuidar da população de seu país”, disse Jean Wyllys no exílio em Berlim, cuja decisão “foi um recado político ao mundo”

Em Berlim, Jean Wyllys diz que recusou asilo político da França e quer ficar na Alemanha – “Minha decisão foi um ato de preservação da minha vida e proteção da minha família, mas foi também um recado político ao mundo.”, declarou o ex-deputado.

No mês passado, Jean Wyllys anunciou que, por causa de ameaças de morte contra ele e sua família, desistia de assumir o que seria seu terceiro mandato consecutivo na Câmara dos Deputados e estava deixando o Brasil. O ex-deputado apareceu pela primeira vez em público depois que deixou o país, ao comparecer à sessão do filme brasileiro Marighella no Festival de Cinema de Berlim, na sexta-feira (15/02).

Na entrevista de hoje, Wyllys fez duras críticas à política de segurança do atual governo, taxando-a como uma tentativa de legalizar assassinatos cometidos contra minorias e um primeiro passo para uma futura repressão à oposição.

“Minha vida ainda está se assentando. Estou em Berlim, não tenho moradia, conto com ajuda de amigos. Ainda não tenho um novo trabalho. Provavelmente vou me inscrever em um programa de doutorado, para fazer doutorado. Existem conversas com instituições que podem me receber como pesquisador, como professor visitante. Existem conversas com diferentes instituições mas ainda não há nada acertado”, declarou.

Ele afirmou que teve oferta de asilo político pelo governo francês, mas que não pretende aceitar. “O asilo político é um instituto que demora um tempo. Há outras pessoas que precisam de asilo político. Para mim, permanecer aqui com um visto de estudante ou pesquisador é muito melhor do que um asilo político.”

“Esse é o nível do presidente do Brasil”

Wyllys afirmou que recebeu como uma confirmação de sua decisão de deixar o Brasil a reação do presidente Jair Bolsonaro, cuja mensagem no Twitter dizendo ser aquele “um grande dia” poucas horas depois do anúncio do parlamentar que deixava o país, foi associada a um gesto de comemoração.

“Ele e seu filho, o “Zero Dois” (o senador Flávio Bolsonaro), comemoraram nas redes sociais. Esse é o nível do presidente do Brasil”, frisou. “Não basta ser um energúmeno, um incompetente, uma pessoa que esteve 30 anos no Parlamento e não produziu nada”, disse. “Não basta ser um imbecil e incompetente que nada sabe sobre economia, políticas de saúde, educação, moradia e infraestrutura. Tem que ser esse debochado, esse moleque que trata a democracia dessa maneira. Ele só confirmou a minha decisão, só me deu razão de que, de fato, o Brasil não era mais o lugar para mim”, afirmou Wyllys.

O ex-parlamentar disse que o vice-presidente é um integrante do governo que teve uma reação “moderada” e “lúcida” em relação ao caso. O general Hamilton Mourão afirmou que a ameaça a um parlamentar é um crime à democracia, em referência à decisão de Wyllys.

“Chegamos a um ponto no Brasil em que consideramos o general Hamilton Mourão, com um histórico de extrema direita, como moderado. A que ponto chegamos?” afirmou. “Ele é um militar de extrema direita, mas ainda consegue ser minimamente moderado, lúcido, diante do sujeito que é hoje presidente da República e que comemorou a saída de um deputado por conta de ameaças de morte”, disse.

“Um presidente deve cuidar da população de seu país. Depois de eleito, ele é responsável pela população. Mas esse sujeito ainda não age como presidente da República. Ele continua agindo como se ainda estivesse em campanha. Tratando as 40 milhões de pessoas que não lhe deram votos, que votaram nos outros candidatos, como inimigos”, lamentou Wyllys.

Essa voz continuará falando”

Ele ressaltou que pretende continuar sendo uma voz ativa na política brasileira, mesmo do exterior. “A minha decisão foi um ato de preservação da minha vida e proteção da minha família, mas foi também um recado político ao mundo. Uma maneira de deixar de naturalizar o que estava sendo naturalizado no Brasil”, disse.

“Acho que esse recado já foi dado e essa voz permanecerá falando, ainda que nesse momento eu me recolha um pouco mais porque estou emocionalmente ainda muito afetado com tudo o que aconteceu”, reconhece. “Isso não significa que vou deixar o front. É possível fazer política fora do Parlamento.”

Wyllys argumentou que sua decisão é meramente estratégica e seu papel agora é o de ativista. “A questão de estar aqui fora é meramente estratégica para me manter vivo. As causas que eu defendo não precisam de um mártir. Já há uma mártir, que é Marielle Franco. Não precisamos de outro. Essas causas precisam de um ativista e um ativista precisa estar vivo”, concluiu.

Wyllys afirmou que as propostas para a segurança do novo governo visam legalizar assassinatos e abrir porta para a repressão contra a oposição. “A única coisa proposta claramente ao país foi um programa de segurança pública oferecido por Sergio Moro que quer legalizar o que a polícia brasileira já faz todos os dias, que é matar pessoas. A polícia brasileira já é campeã de assassinatos de pobres e pretos no Brasil. E os policiais saem impunes desses crimes”, disse.

“O atual ministro da Justiça quer legalizar e ampliar possibilidades de assassinatos das pessoas. Por trás disso está na verdade uma tentativa de legalizar a repressão contra a oposição política que vai haver no governo Bolsonaro. O pacote dialoga com os preconceitos da classe média, mas a verdade é criminalizar os movimentos sociais”, concluiu o ex-parlamentar. 

Wikimedia Commons
O ex-deputado federal do Psol, Jean Wyllys, revelou que está morando na capital alemã, onde pretende procurar uma bolsa para doutorado.

Et Urbs Magna via Opera Mundi

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