Engenheiro aposentado descobre ‘erro técnico’ em barragens de rejeitos, como a de Brumadinho, e apresenta a solução, mas a justiça prefere prender falsos culpados – outras tragédias são inevitáveis

3 de fevereiro de 2019 0 Por Dino Barsa
Engenheiro aposentado descobre ‘erro técnico’ em barragens de rejeitos, como a de Brumadinho, e apresenta a solução, mas a justiça prefere prender falsos culpados – outras tragédias são inevitáveis

Um engenheiro civil aposentado de 72 anos, com quase 50 de experiência em obras de barragens para hidrelétricas, alerta que um ‘erro técnico coletivo’ (que consegue ‘driblar’ a normatização da ABNT) pode estar sendo utilizado indevidamente nas barragens de rejeitos de mineradoras, como as de Brumadinho e Mariana, que tiveram rompimentos desastrosos recentemente. A partir deste conhecimento ineficiente empregado por empresas de mineração, deduz-se que todas as barragens de rejeitos também sofrerão rompimento em algum momento.

Segundo Ulf Hermann Mondl, o engenheiro que publicou sua teoria em várias redes sociais após frustrantes envios sucessivos de seus artigos para o jornal O Estado de São Paulo, um fenômeno pouco comum que transforma abruptamente os resíduos sólidos em lama liquefeita é chamado de ‘tixotropia das areias’, haja vista que a sílica (areia) é encontrada em grande quantidade no material barrado. A matéria de Hermann é um tanto complexa, mas é escrita em linguagem não técnica sendo fácil compreendê-la quando lida com a devida atenção

Leia abaixo a publicação do Engenheiro Civil aposentado:

Sou um engenheiro civil, já aposentado, com 72 anos, residente em SC e com uma prática profissional de quase 50 anos. Atuei em obras de terra de barragens para hidrelétricas, água de abastecimento, estradas de acessos às obras, entre outras. Como profissional me interessei com os acidentes de Mariana e Brumadinho, chegando a poucos dias a uma conclusão de um fenômeno ainda não considerado; que as rupturas ocorreram subitamente sem aviso prévio, observado-se que os maciços de rejeitos de mineração antes tidos como materiais sólidos, se converteram bruscamente em lamas liquefeitas, que provocaram avalanches com efeitos mortais nas bacias dos rios a jusante. Vi diversos vídeos no youtube onde claramente se observa lamas liquefeitas fluírem. À luz das teorias da mecânica dos solos tal fenômeno de liquefação súbita não é observado e nem explicado. Lembrei ao folhear um antigo livro texto de materiais de construção, que no capítulo de areias existe a menção do efeito da tixotropia das areias que, antes firmes, se agitadas, se liquefazem subitamente. Como pelo noticiário soube que o material de rejeito é rico em sílica, ou seja, areia, me veio a hipótese da ocorrência da tixotropia das areias, que explica muito bem a observada súbita liquefação dos materiais retidos pelas barragens de rejeitos, que não são calculadas para resistir a tal efeito. Infelizmente constatei que os critérios de segurança usados nas certificações, são os tradicionais da mecânica dos solos, empregados para barragens de terra para fins hidrelétricos e abastecimento de águas, onde, obviamente, não existe a consideração de tais hipóteses de liquefação súbita, pois os critérios de barragens de rejeitos são diferentes das de barragens de águas. Pesquisando a tixotropia, na natureza ela ocorre no chamado efeito das areias movediças. Existe em perfurações profundas o uso de lâminas tixotrópicas, que se liquefazem durante a movimentação das brocas, e solidificam nas paradas, tapando o furo para saída de líquidos abaixo em alta pressão.
Já mandei muitas matérias para o Estadão, do qual sou assinante, comentando a tragédia de Brumadinho, aventando o efeito da tixotropia que explica facilmente o ocorrido, mas obviamente um exótico engenheiro sulista não é sequer ouvido. Peço que seus técnicos nas suas análises passem a considerar o fenômeno da tixotropia, pois tenho o pressentimento que ocorre faz muito tempo, um grande erro técnico coletivo. Como sei que a Vale é uma empresa séria, é claro que considerava a barragem de rejeitos desativada segura, pois a sua diretoria por mais que empenhada que fosse na busca de lucros, jamais consideraria ameaçar seu mais de 300 colaboradores, onde havia em muitos a inteligência empresarial de mineração agora perdida. Também me causa revolta, que os engenheiros que certificaram a segurança das barragens, usando critérios técnicos, constantes das normas técnicas da ABNT, agora sejam postos como bodes expiatórios da tragédia, por uma juíza e promotores que querem ver sangue, atribuindo aos colegas que agiram em boa fé, os piores crimes imaginados e os tratando como perigosos criminosos. Para aquela juíza deve valer o lema: -“castigar é preciso, desvendar a realidade da tragédia não é preciso”. Peço-lhe que os senhores na análise do ocorrido, consigam, junto às autoridades, que se aja como na análise de acidentes aéreos, não se procurem culpados, mas sim, se descubram as vedadeiras falhas e erros, evitando-se sua repetição. Estou plenamente convencido da necessidade da introdução do fenômeno da tixotropia nas futuras análises de segurança em barragens de rejeitos, tanto na análise das já existentes como nas futuras a construir. Emergencialmente, nas existentes, caso estejam encharcadas, medidas de drenagem de seu interior seriam talvez adequadas. Caso haja interesse dos senhores, poderei por esse meio enviar meus comentários ao Estadão, sobre o que penso sobre as matérias jornalísticas publicadas sobre o acidente de Brumadinho.

Atenciosamente


Ulf Hermann Mondl,
RG 1.254.999 SC
Rua das Palmeiras, 318,
Bosque das Mansões, 
São José- SC CEP 88108-430
hermannxx@yahoo.com.br
48 99101-9577

Leia abaixo uma opinião de Mondl publicada no Estadão:

E a presunção de inocência?

“‘Se os culpados não forem punidos, tudo recomeçará’, diz jurista sobre Brumadinho” (“Estadão”, 29/1, A17). Agora muita gente, como o jurista que se manifesta na matéria, tentará surfar na onda da tragédia que ceifou muitas vidas na tragédia de Brumadinho. Vamos começar com o conceito da presunção de inocência, pois a Vale, uma antiga e bem conceituada empresa, ao localizar sua área técnica e administrativa a jusante da barragem desativada que rompeu subitamente, jamais cogitou nem de longe de pôr em risco a vida de tantos colaboradores, por mais ávidos de lucro que fossem seus diretores. O acidente não esperado nem previamente detectável, da transformação dos rejeitos de mineração, previstos e calculados pelas práticas vigentes, onde não se previa o fenômeno da tixotropia das areias, onde subitamente uma massa antes considerada firme se transforma em lamas liquefeitas, para as quais as barragens de rejeitos não foram projetadas. O infeliz da história foi que os atestados de segurança para barragens emitidos de boa-fé foram estritamente baseados nas normas técnicas vigentes para segurança de barragens de água, consideradas menos seguras do que as de rejeitos sólidos, o que os fatos de Mariana e Brumadinho não confirmaram. Pode-se também agora observar a sanha de sangue de promotores, juízes e delegados contra pacatos engenheiros que subitamente são os culpados pela tragédia e cuja continuidade em São Paulo poderia “prejudicar” a elucidação das causas do acidente em Minas Gerais, para justificar sua prisão preventiva. Promotores e juízes, na sua agora feroz sanha persecutória, que a rigor não deveria atender ao clamor das ruas, aplicam um remédio só justificável para bandidos muito perigosos. Talvez seria também para justificar inconscientemente o recente vergonhoso e abusivo aumento de 16,38% de seus vencimentos, sem procurar mais objetivamente a real causa da tragédia em seu pensamento linear, que na maioria dos casos de acidentes é fruto da coincidência de muitos fatores prejudiciais não facilmente previsíveis. Onde ficou a presunção de inocência tantas vezes alardeada para os engenheiros presos abusivamente?

Ulf Hermann Mondl

hermannxx@yahoo.com.br

São José (SC)

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