Marcelo Yuka, fundador do ‘O Rappa’, se foi aos 53 anos – vida e morte do artista-herói que sobreviveu a 9 tiros e ficou paraplégico

19 19-03:00 janeiro 19-03:00 2019 0 Por Redação Urbs Magna
Marcelo Yuka, fundador do ‘O Rappa’, se foi aos 53 anos – vida e morte do artista-herói que sobreviveu a 9 tiros e ficou paraplégico

Morreu na noite desta sexta-feira 18 o baterista e fundador da banda O Rappa, Marcelo Yuka, aos 53 anos. O compositor estava em coma em decorrência de infecções e de um AVC (acidente vascular cerebral) sofrido nos últimos dias do ano passado — o segundo em seis meses.

A informação foi confirmada pelo hospital Quinta D’or neste sábado 19.

Yuka enfrentava problemas de saúde desde 2000, quando ficou paraplégico após levar nove tiros ao tentar impedir um assalto a uma mulher na Tijuca, na zona norte do Rio.

Nascido em 31 de dezembro de 1965, no Rio de Janeiro, Marcelo Fontes do Nascimento Viana de Santa’Ana passou a infância no humilde bairro de Campo Grande e a adolescência em Angra dos Reis, onde aprendeu a surfar. Foi no início da idade adulta que se envolveu para valer com a música, ao mesmo tempo em que cursava Jornalismo na faculdade. A paixão pelas palavras seria uma herança da mãe, que era professora e, segundo o baterista, bastante severa. 

Tocando com amigos na Baixada Fluminense, onde o cenário do reggae crescia, o músico integrou a banda carioca KMD-5, pioneira do ritmo no Brasil entre os anos 1980 e 1990. É também nessa época que nasceu o nome artístico Marcelo Yuka. Com 1,90m de altura, Marcelo ganhou o apelido de “uruca” durante os ensaios que aconteciam em um barraquinho pequeno, que desafiava sua entrada e a da bateria. Um garoto da região, que não conseguia pronunciar o apelido do baterista, o chamava de “iruca”, o que acabou se tornando Yuka.

No início da década de 1990, o nome de Marcelo já começava a circular entre o cenário musical brasileiro, juntamente com de outros colegas como a banda Skank e o rapper Marcelo D2, em um momento que o rock brasileiro bebia de influências do hip hop e do reggae. Em 93, Yuka fundou O Rappa ao lado de Marcelo Lobato e Alexandre Menezes, o Xandão, com Nelson Meirelles, produtor do Cidade Negra. Inicialmente, o grupo foi criado meio às pressas para acompanhar o cantor caribenho Papa Winnie pelo Brasil. A química foi boa e, em seguida, eles anunciaram no jornal O Globo a vaga de vocalista, que foi preenchida por Marcelo Falcão.

Yuka foi o autor de boa parte dos sucessos da banda, que tomou as rádios com faixas como Pescador de IlusõesMe Deixa, Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)O Que Sobrou do CéuTodo o Camburão Tem um Pouco de Navio Negreiro, entre outras. As letras, assim como os videoclipes, eram marcados por fortes críticas sociais e políticas.

A vida do músico e compositor mudou em 9 de novembro de 2000. Marcelo tentou impedir a ação de um grupo de criminosos contra uma mulher. Ele foi baleado nove vezes. Uma das balas atingiu a segunda vértebra torácica do baterista, deixando-o paraplégico. No ano seguinte, após desavenças com os demais integrantes da banda, Yuka deixou O Rappa.

“Eu tinha 34 anos, virei uma curva e me vi assim. Tudo aconteceu muito rápido e a mente não consegue acompanhar”, lembrou em entrevista à jornalista Marília Gabriela, no SBT, exibida em 2014. “Na hora que tomei os tiros eu percebi que ficaria assim. Não perdi a consciência. Senti que o corpo não tinha mais o equilíbrio do tronco. Fiquei por algum tempo com o corpo muito debilitado. Depois veio o entendimento de como seria minha vida. O trabalho ajudou muito. E acho que hoje só agradeço. Eu queria aprender a ser alguém melhor pelo amor, e não pela dor. Pela dor todo mundo aprende.”

A saída da banda o levou a intensificar seu lado ativista. Entre as ações sociais abraçadas por ele estava um trabalho realizado em cadeias ao longo de três anos, no qual levava filmes, livros e palestras aos presos. “Foi interessante me conectar com aquelas pessoas, pois quando eu entrava na cela, era um esforço grande. As portas são pequenas, o lugar lotado, eu sentia dores. E eles percebiam isso. E pensavam: ‘pô esse cara vem aqui ajudar pessoas que parecem com os que fizeram isso com ele”, conta. Em diversas entrevistas, o músico garantiu que não guardava rancor dos criminosos que atiraram contra ele. “Eu queria que a Justiça tivesse sido feita. Mas desde o começo decidi que não queria carregar mais essa dor, de ficar procurando quem foi. A situação já era muito limite, não queria um coração amargo. Fui cuidar da minha vida.”

A veia artística e o ativismo político se uniram com a criação do grupo F.UR.T.O, idealizado por ele como um projeto social, que deu origem também a uma ONG de mesmo nome. Ali, entre projetos contra a violência, Yuka lutou em prol das pesquisas com células troncos para tratamentos de pessoas deficientes.

Filiado do PSOL, Yuka disputou as eleições municipais de 2012 como vice-prefeito na chapa do hoje deputado Marcelo Freixo. Ao ser questionado se ainda tinha ambições políticas, em entrevista ao Programa do Bial, no ano passado, Yuka respondeu: “Deus me livre. Nunca mais. Essa ideia foi do Freixo”. No mesmo programa, o músico afirmou que há 17 anos lidava com dores crônicas. “Eu tenho dor 24 horas por dia, mas eu não posso pensar nisso senão ela aumenta.”

Todo o processo de recuperação e sua vida após o assalto foram retratados no documentário Marcelo Yuka no Caminho das Setas, de Daniela Broitman, e no livro autobiográfico Não Se Preocupe Comigo (Ed. Sextante). Em 2017, Yuka lançou seu primeiro álbum solo Canções para Depois do Ódio.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, em julho do ano passado, ele falou sobre como suas constantes internações dificultaram a divulgação do disco: “No primeiro ano (2016) eu fiquei indo e voltando para o hospital e no outro (2017), um ano e dois meses direto (internado), sendo que oito meses eu fiquei sem sair da cama. Fiz um tratamento na câmera hiperbárica que me deixou temporariamente surdo. Virei doente renal, tive uma série de doenças ocasionadas pela internação”. No álbum, Yuka usou sua grande habilidade como letrista para criar metáforas e falar da vida após o atentado, da clausura do corpo e da luta contra a depressão. Confira abaixo duas faixas do trabalho:

Et Urbs Magna via Veja

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