Tecnologia popular de saúde beneficia 1,5 milhão de pessoas na Índia

17 17-03:00 dezembro 17-03:00 2018 0 Por Redação Urbs Magna
Tecnologia popular de saúde beneficia 1,5 milhão de pessoas na Índia

Médico indiano explica como reduzir mortalidade infantil, materna e doenças em área rural, trabalhando com a comunidade

Garantir uma saúde de qualidade para população que vive em locais de maior vulnerabilidade social. Foi a partir dessa perspectiva que um grupo de cinco médicos, formados em escolas da elite na Índia, partiram de Nova Deli para trabalhar em comunidades rurais marginalizadas no distrito de Bilaspur, no leste indiano, estado de Chattisgarh. Lá criaram em 1996 o JSS (Jan Swasthya Sahyog ou Grupo de Apoio à Saúde do Povo), uma iniciativa de saúde pública que desde 2000 vem oferecendo serviços de saúde a 1,5 milhão de pessoas. 

“A ideia inicial era trabalhar em povoados, uma vez que os médicos na Índia não vão para esses lugares, que são os mais pobres no país”, conta o médico Yogesh Jain, um dos criadores do JSS. Em visita ao Brasil, no final de novembro, para conhecer as experiências do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no setor de saúde e se aproximar da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares (RNMMP), ele concedeu a entrevista exclusiva ao Saúde Popular. O médico pediatra relata que, com mais de 1 bilhão de habitantes, a Índia não possui um sistema público de saúde como o SUS, no Brasil. A maioria dos médicos formados no país migra para os Estados Unidos e Reino Unido, e os que permanecem se recusam a trabalhar em locais de maior vulnerabilidade.

“Na minha turma da universidade, havia 46 pessoas, apenas 14 permaneceram na Índia”, aponta. A escolha por desenvolver o trabalho em províncias como Ganiyari e Shivtara, além da extrema pobreza e falta de acesso até mesmo aos cuidados mais básicos, veio do histórico de lutas populares. No hospital do JSS sediado em Ganiyari, a 25 km da principal cidade do distrito de Bilaspur, a população dispõe de 30 leitos, dois centros cirúrgicos, um laboratório totalmente equipado e três clínicas ambulatoriais. Em Shivtara estão as clínicas médicas da organização. 

Distante da lógica “medicalocêntrica” – centrada na figura do médico -, o projeto se baseia na oferta de uma saúde comunitária eficaz, centrada na pessoa. De baixo custo e alta qualidade, o JSS já formou mais de 500 pessoas para auxiliar nas emergências e tratar doenças comuns nos territórios onde moram e atuam. Na entrevista a seguir ele fala dos desafios do projeto na Índia e defende que a saúde pública seja garantida pelo Estado. “Organizações não-governamentais [ONGs] e organizações sem fins lucrativos não podem ser a resposta para a saúde da população”. Confira a íntegra da entrevista: 

Saúde Popular: O que é o JSS e qual tipo de medicina é utilizado no projeto?  Yogesh Jain: JSS (em hindi a sigla significa Jan Swasthya Sahyog), numa tradução literal para o inglês seria People’s Health Support Group (Grupo de Apoio à Saúde Popular). Nós, pessoas com treinamento técnico em alguns níveis do atendimento em saúde, podemos ajudar a população no geral a ter uma saúde melhor e oferecer cuidados paliativos a quem está em estágio final de doenças. Oferecer cuidados para problemas ou ajudar a compreender o porquê das pessoas adoecerem, para que assim elas possam tratar dos motivos por conta própria. Temos hospitais de base na região central da Índia, onde pode-se dizer que está o epicentro do subdesenvolvimento. Com base em nosso trabalho, estamos tentando compreender os problemas da população rural e marginalizada de todo o mundo e oferecer soluções. Qual é o contexto atual do sistema de Saúde na Índia e por que decidiu trabalhar nessas comunidades? Na Índia, se você está fora da cidade grande, as chances de se manter saudável são bem menores. A chance de morrer em decorrência de uma doença comum aumenta quanto mais longe a comunidade rural estiver da cidade. A ideia de escolher esses espaços para trabalhar, se baseou na premissa de que queríamos trabalhar onde a saúde da população estava em situação de maior vulnerabilidade. Contribuir com o conhecimento e a qualificação que temos. 

Você explica em uma apresentação no TEDx Talks que há três tipos de médicos: os que só diagnosticam, aqueles que perguntam as razões e outro tipo que analisa o contexto. Qual seria o tipo de médico que as populações em situação mais vulnerável necessitam? Me refiro a bons médicos, não estou nem falando dos médicos que não são bons, porque esses não fazem nem o trabalho do primeiro tipo. O primeiro tipo de médico é aquele que trabalha num nível mais individual. Mas, pensando que indivíduos juntos formam uma comunidade, eles também fazem um bom trabalho. Vamos encontrar bastante esse tipo de médico na cidade. O segundo tipo de médico não olha apenas para as doenças, mas as causas imediatas dessas doenças. Se há um problema de tosse entre jovens nos arredores de uma fábrica, o médico se preocupa com os gases tóxicos da indústria que estão ameaçando as pessoas. Tenta olhar para algumas causas da doença. Ele vai olhar se a água está contaminada ou não. O terceiro analisa as causas políticas das doenças e dos problemas. Se uma grande quantidade de pessoas sofre com desnutrição por ter sido expulsa de suas comunidades, para a construção de uma represa, ou para a mineração, ou porque o governo quer vender aquela terra para capitalistas. Eu penso que precisamos dos três tipos, mas quase não temos o terceiro tipo no mundo. Apenas alguns. Eu seria um médico tipo 2.5. 

Que tipo de tecnologia vocês têm criado na JSS? A primeira tecnologia é a do conhecimento. Não é exatamente de instrumentos, mas o fato de olhar para questões relacionadas com a pobreza no país. Que tipo de tratamento deve ser dado para pessoas que vivem na pobreza? Qual o tratamento para uma pneumonia onde não há médicos? Como oferecer tratamento onde não há nenhum médico em um raio de 50 quilômetros? Desenvolvemos diretrizes e protocolos para que os profissionais da saúde não médicos possam usar, mas também médicos que estão sozinhos nessas comunidades sem especialistas. Também desenvolvemos e ajudamos na apropriação de instrumentos para ajudar a população no atendimento de saúde. [Produzimos] termômetros de fácil leitura, porque os profissionais de saúde não têm um nível de alfabetização muito alto. Como diagnosticar pneumonia na comunidade, usar o estetoscópio corretamente, medicar para asma utilizando aparelhos especiais para a inalação. 

Quais melhorias foram obtidas nessas comunidades? Pensando na área em que nós trabalhamos, com uma população de cerca de 1,5 milhão de habitantes, o índice de mortalidade infantil caiu mais de três vezes, de 120 óbitos por 100 mil crianças nascidas vivas para a razão de 32 óbitos por 100 mil. A mortalidade materna – que acontece entre a gestação até o puerpério – caiu cinco vezes, de 400 para 50 [por 100 mil habitantes]. A mortalidade por pneumonia, tuberculose e malária também teve queda. Outra mudança drástica é em relação a pessoas que se endividam e empobrecem por procurar os serviços de saúde privados. Oferecendo medicamentos baratos e racionais, e fornecendo treinamento para profissionais de saúde que atuam no sistema público e no sistema não governamental, conseguimos reduzir custos. 

Vocês têm oferecido treinamento a pessoas para trabalhar no projeto que não são, necessariamente, médicos. Como funciona? Na Atenção Primária à Saúde, há um consenso mundial sobre a necessidade de funcionários da saúde da própria comunidade. Embora não seja implementado no mundo, nós levamos essa ideia para o nível de cada povoado. Num povoado com 40 ou 50 casas terá um morador com treinamento para dar apoio às visitas domiciliares de atendimento, às necessidades para a saúde de sua própria comunidade. No entanto, entre o médico – normalmente baseado em um centro urbano, nunca nos povoados da maior parte da Índia – e o agente de saúde presente na pequena comunidade, precisamos do agente comunitário de saúde sênior. Precisamos de um profissional de saúde não médico que possa receber um treinamento melhor, para além do agente no nível da comunidade, para tratar de complicações e emergências. Eles recebem um treinamento formal mais longo, digamos de um a três anos, apoio permanente de uma organização médica, mas também de licença técnica da organização que oferece o treinamento, aceitação da sociedade e da autoridade jurídica do estado, seja no nível provincial ou nacional. Já qualificamos 500 agentes comunitários de saúde locais e 80 agentes seniores que oferecem esse nível intermediário de atendimento de saúde, em vários grupos de 20 pessoas. 

Que tipo de saúde precisamos em um mundo onde temos como alguns dos desafios a alimentação comprometida por agrotóxicos, a indústria farmacêutica? Eu sinto que nós precisamos de médicos e outros trabalhadores na saúde para liderar a mudança para uma sociedade mais igualitária. Nós estamos em uma posição de assumir a liderança de ligar os pontos entre a saúde dos seres humanos que somos, a saúde dos animais que vivem conosco, e o alimento que é dado a eles, além também do meio ambiente ao nosso redor, as plantas e os animais não domesticados. Seja a preocupação que ouvimos sobre o agrotóxicos ou o uso excessivo de antibióticos que levam ao desenvolvimento de resistência. A alimentação dos animais inclui muitos antibióticos, o que aumenta a resistência deles às bactérias que causam doenças também no ser humano. A ideia de uma saúde [única, integrada] exige que médicos e profissionais da saúde liderem o movimento. E o que nós fazemos? O apoio que deve sustentar todo esse trabalho deve ser a equidade, não a eficiência. Precisamos de um programa que se construa com as pessoas no centro, pois elas trazem contribuições baseadas na equidade para o sistema de saúde. Se o sistema não está levando à equidade, até que ponto ele é eficaz e eficiente? Para mim, esse não será um programa a apoiar. 

O que o motivou a vir para o Brasil? Primeiramente, ver o trabalho incrível que o MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra] tem feito e relacionar com o que estamos fazendo na Índia. Ao mesmo tempo, vim com a esperança de que nós, que trabalhamos em mundos desiguais, possamos nos unir e desenvolver um trabalho melhor para as pessoas. Mesmo que seja só como profissionais da saúde, mas em outros aspectos da saúde. Estou ansioso em construir relações e planos conjuntos por um mundo menos desigual. 

Como funciona o projeto, financeiramente falando? A pobreza não é sustentável, mesmo o atendimento na saúde em áreas pobres não é sustentável. Não podemos atuar como uma organização sem fins lucrativos e tirar o dinheiro das pessoas que atendemos. Cerca de 80% da nossa necessidade orçamentária para oferecer atendimento em saúde, promover treinamento e desenvolver tecnologias depende de doações de amigos sensíveis à causa. Também recebemos financiamento de corporações comprometidas com a saúde da população, mas com o cuidado de não aceitar recursos de empresas que aumentam a desigualdade. Não aceitamos financiamento de organizações estadunidenses como a USAID [Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional] nem do Banco Mundial ou da Fundação [Bill e Melinda] Gates. 

Qual é a sua opinião sobre o processo de desmonte e privatização do SUS [Sistema Único de Saúde] do Brasil e o futuro da saúde na Índia? Em uma sociedade desigual, a privatização não é a resposta, seja para a saúde ou outros serviços. Organizações como a nossa, que não fazem parte do sistema governamental, ainda assim são instituições públicas. Sentimos que temos esse dever para com a população e a contribuição que podemos dar é apenas para uma pequena parcela da população de um bilhão de habitantes da Índia, enquanto nós trabalhamos somente com 1,5 milhão de pessoas. A solução que nós propomos para um problema generalizado na saúde pode ser adotada e implementada pelo Estado em outros lugares, mas organizações não-governamentais (ONGs) e organizações sem fins lucrativos não podem ser a resposta para a saúde da população. Eu diria a mesma coisa sobre o Brasil. Se existe uma tentativa de desmonte do sistema público nacional de saúde e privatizar os serviços mais do que já são [privatizados], isso só pode acontecer com o risco de prejudicar a saúde da população. Eu espero e torço muito que isso não aconteça no Brasil. Acredito que todos deveriam aprender com países como a Índia, onde há um sistema de saúde altamente privatizado e não conseguimos avançar nada nessa área. Pelo contrário, isso tem piorado, mesmo com a atuação de organizações como a nossa para tentar conter o problema.

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