“MEU TELEFONE TEM MAIS GRAMPO QUE VARAL DE FAVELA”, DIZ MARCELO FREIXO, APÓS A MORTE DE MARIELLE

Marcelo Freixo não dorme bem há 20 dias. O deputado estadual de 50 anos, diz que, desde o assassinato da amiga, a vereadora Marielle Franco, “a cabeça não para de rodar”. Abatido, com os olhos marejados e a segurança reforçada, ele descarta ser candidato a governador não só por causa da cláusula de barreira. Se ficar sem mandato em período de campanha perde a proteção do estado. “Com a quantidade de ameaças que recebo, teria que deixar o país”, afirma.

Recém-casado com a roteirista Antonia Pellegrino, o ex-professor de História, nascido no bairro do Fonseca, em Niterói, falou à repórter Maria Fortuna, na quinta-feira passada. A conversa foi na casa que Antonia deixará em breve para viver com o deputado. “O deslocamento também virou um problema de segurança, melhor ficarmos juntos”, diz.

Em uma hora de entrevista, Freixo falou também sobre o rótulo de “queridinho da esquerda festiva”, as lições de feminismo que recebe da nova companheira e o telefonema do prefeito de Nova York, que vai homenagear Marielle com um mural de arte urbana. Não sem antes trancar bem a porta da frente e responder a algumas mensagens da família da vereadora por WhatsApp.

Como tem ajudado na investigação do caso Marielle? Fala com o delegado diretamente?

Não falo mais nada pelo meu telefone, que tem mais grampo que varal de favela. Tenho contato permanente com o delegado Fábio Cardoso, da Homicídios. Nos falamos de dois em dois dias, pessoalmente. Quem trabalha com Direitos Humanos no Rio, infelizmente, trabalha com morte.

Por que Marielle morreu?
Pela política, foi um crime encomendado. Mataram com profissionalismo, sabiam que as câmeras estavam desligadas, que podiam ficar duas horas dentro de um carro, com armas, sem medo de serem abordados. Há linhas de investigações que passam pela Câmara, mas não temos a menor ideia do motivo porque ela nunca sofreu nenhuma ameaça.

Tem dormido bem? Toma remédio?

Não tomo. Mas tenho dormido mal, acordo muito à noite, minha cabeça não para de rodar. Lembro da cena da minha mãe abraçando a dona Marinete (mãe de Marielle) e dizendo “sei o que você está sentindo” (Freixo perdeu um irmão assassinado pela milícia em 2006). Senti meu peito rasgando (emociona-se).

Se responsabiliza pelo que aconteceu?

Claro. É o que mais trabalho dentro de mim. Não fui morto não só porque sou homem branco. Depois da CPI das Milícias, ganhei visibilidade, fui muito ameaçado. Agora, tive que reforçar a segurança e tomar mais cuidado com a rotina. Enquanto não sabemos quem fez e qual a motivação do crime, viveremos com medo. Mas há uma gana de resposta. As denúncias sobre milícia triplicaram na Comissão de Direitos Humanos. O prefeito de Nova York ligou perguntando como poderia homenagear Marielle.

Em algum momento achou que fosse morrer?

Em 2011, quando mataram Patricia Acioli (juíza que mandou 60 PMs para a prisão), falei “opa”.

Naquela época, o senhor saiu do país por causa de ameaças de morte e voltou 15 dias depois…

Existia uma lista na época da morte da Patricia, e eu estava no topo dela. Recebi da secretaria de Segurança uma relação de planos para me matar. Tinha gente oferecendo R$ 400 mil. Quinze dias foi o tempo que a secretaria levou para reforçar minha segurança. Eu não tinha a intenção de não voltar.

Seus filhos têm medo?

Nunca ameaçaram minha família. Isadora, de 19 anos, e João Pedro, de 27, passaram boa parte da vida vendo o pai sob proteção.

Antonia, sua mulher, é uma feminista aguerrida. Há quanto tempo estão juntos? Teve que mudar comportamentos antigos?

Todo homem é meio machista. Abro a porta do carro, mas a razão original é porque ele é blindado e a porta é pesada. Antonia diz que não há problema desde que não seja para compensar uma atitude, para colocar a mulher no papel de frágil. Estou sendo desconstruído diariamente, é libertador. Namoramos há um ano e nos casamos há um mês.

Casaram?

Sim. Não fizemos festa, foi um pacto nosso, entre a gente. Antes da morte de Marielle, pensávamos em cada um morar numa casa, mas depois disso, com a questão da segurança, decidimos morar juntos. Marielle dizia que era nossa madrinha. Um dia, falou que eu tinha que namorar uma mulher “tipo Antonia Pellegrino”. Depois, encontrei Antonia e olhei para ela de outra maneira.

As tarefas em casa são divididas?

Tenho uma faxineira, e Antonia uma funcionária por causa das crianças (Iolanda, de 5 anos, e Lourenço de 4, filhos de Antonia com Francisco Bosco). A louça é minha e ninguém tasca, nisso não tem democracia (risos). Nós gostamos de cozinhar juntos.

Como vê a quarta onda feminista? Acha que há exagero na questão do assédio?

Assédio é relação de poder, não é desvio de comportamento. O movimento feminista é uma das maiores contribuições para a democracia.

A morte de Marielle abriu ainda mais o abismo ideológico entre direita e esquerda?
A morte da Marielle traz o debate de direitos humanos para um front que divide a sociedade entre democracia e barbárie. Não foi movida por ideologia, isso não é direita e esquerda. O que fizeram com ela depois da morte, dizendo que era isso e aquilo, a desembargadora, o xingamento ao padre… Isso é barbárie. O fascismo não é no campo da democracia, é a negação dela.

Tiros na caravana do Lula, ameaças ao ministro Facchin… É grave a violência política?
É barbárie! Sobre a caravana do Lula, é ruim a fala do Alckmin (“PT colhe o que planta”) e do Doria (“o PT sempre utilizou da violência, agora sofreu da própria violência”). A social democracia não pode flertar com o fascismo. Tem que haver condenação, exigência de investigação. A morte da Marielle não é um problema do PSOL. O prefeito de Nova York me ligou para saber o que pode fazer (Freixo vai sugerir a criação de um mural de arte urbana dedicado à vereadora).

Acredita que a legalização das drogas é o único jeito de acabar com a violência no Rio?

Sou a favor da legalização, é um debate mundial. A pergunta é quem vai controlar o comércio: o estado ou o crime? O caminho não é simples. A questão é redução de danos e saúde pública. Achar que vai legalizar as drogas, no dia seguinte as favelas vão estar empregadas e não vai haver mais violência é uma ilusão. É decisivo para o Brasil a reformulação das polícias.

Incomoda-se com o rótulo de queridinho da “esquerda festiva”?

Adoraria ir a mais festas, adoro gente, alegria, tenho senso de humor, brinco muito com a minha equipe. A esquerda não precisa ser chata. Melhor ser xiita do que ‘chaaata’. Presidi duas CPIs, tenho ameaça a dar com o pau, fiz leis importantes, não sou superficial. Mas não abro mão da alegria e da festa. Quero é ser feliz.

Foi consultor de “Tropa de Elite 2”, de José Padilha. O que achou de “O mecanismo”?

Achar que Polícia Federal e Ministério Público estão fora de algum mecanismo é um erro primário. Pensar que a solução está fora da política é um risco para a democracia.

O que fez de errado para perder a eleição para Crivella? Se arrepende do discurso?

Não me arrependo de nada. Numa entrevista, disse que a vitória seria uma resposta ao golpe. Usaram a frase para associar minha imagem ao PT. Também houve gravações imitando a minha voz. Taxistas receberam um áudio em que eu os xingava. O problema é que a cidade está pagando um preço alto por ter um “prefake”. Perdemos a eleição por causa de “fake news”.

Muita gente votou nele para o senhor não ganhar. Por que tanta rejeição?

Vivíamos a maior crise da esquerda, o auge das denúncias do impeachment. Era o pior momento de credibilidade da esquerda e eu paguei o preço por tudo isso. Se a eleição fosse hoje, talvez fosse diferente.

Acha que só fala para a esquerda?

O meu mapa eleitoral do segundo turno mostra que, de cada dez votos, cinco foram da Zona Norte e três, da Zona Oeste.

O senhor defende o voto nulo em alguma situação?

Só em situações muito extremas. Votei nulo quando a disputa foi entre Garotinho e Marcelo Alencar, e entre Pezão e Crivella.

Quem o senhor acha que colocaria o Brasil no rumo certo?

Não tem salvador da pátria. 2018 já está sendo um ano muito violento. O que tá separando a política é uma linha demarcatória entre democracia e barbárie. Se conseguimos derrotar a barbárie, já é um avanço. A contribuição do PSOL com a candidatura do representante do Movimento Sem Teto Guilherme Boulus, tendo como vice a indígena Sônia Guajajara, é trazer para dentro quem estava excluído do debate, ampliando a compreensão política.

O senhor não será mesmo candidato ao Governo do Rio?

Não. Preciso ser candidato a deputado federal para superar a cláusula de barreira (norma que restringe o funcionamento do partido que não alcançar determinado percentual de votos). Há um desafio para que eu seja o mais votado e isso ajuda na disputa à prefeitura daqui a dois anos. Se eu não tiver cumprindo mandato, com essas ameças que sofro, terei que sair do Brasil e não estou disposto. Vamos ver o que sobra da democracia depois das próximas eleições.

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