SOBRE CÁRMEN LÚCIA E FACHIN: “DOIS COVARDES”, DIZ REINALDO AZEVEDO

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É preciso que se entenda a natureza da, digamos, covardia jurídico-politiqueira que hoje marca as respectivas atuações de Cármen Lúcia, presidente do Supremo, e de Edson Fachin, relator do petrolão no tribunal.

Quando o doutor recebeu o habeas corpus preventivo impetrado pela defesa de Lula, ele poderia simplesmente tê-lo recusado. Mas não fez isso. Negou a liminar e, como se diz em linguagem técnica, “afetou o pleno” — havia a alternativa de recorrer à Segunda Turma. Tendo agido assim, ele pode, se quiser, para usar o jargão, “levar em mesa” o recurso. Não depende de Cármen para isso. E os ministros terão de se debruçar sobre a questão.

Ocorre que o doutor, hoje, está empenhado em fazer embaixadinha para a galera. Se cumpre a sua tarefa, põe o HC em votação e se a maioria do pleno decidir em favor de Lula, ainda que ele próprio vote contra — e certamente votará —, teme ser acusado de estar atuando contra a prisão do petista. Então Fachin faz o triste papel de enviar o recurso ao pleno, mas sem provocar a votação, deixando a decisão para Cármen, que decide não votar.

A presidente do tribunal, demonstrando, mais uma vez, que está numa função acima de seus dotes jurídico-intelectuais, resolve sentar em cima do pedido de habeas corpus. Até aí, ela poderia pensar lá com os botões do seu tailleur: “Se Fachin não provoca a votação, por que eu vou dar a cara ao tapa”? Sim, mas e as duas Ações Declaratórias de Constitucionalidade, que tratam justamente da legalidade da prisão após condenação em segunda instância? Estas aguardam desde dezembro para entrar na pauta. A decisão depende exclusivamente de Cármen. E ela está fazendo de conta que a coisa não é com ela.

Obviamente, estão em curso dois casuísmos contra Lula. O primeiro lhe diz respeito diretamente porque se trata de um habeas corpus de que ele é o objeto. O segundo — relativos às ADCs — o afeta, mas tem caráter geral. A decisão, note-se, se dará no âmbito de uma ação que tem, por força do que dispõe o artigo 102 da Constituição, efeito vinculante. Cármen deixar de pautar a questão porque ela pode beneficiar Lula é inaceitável. Ou alguém tem alguma dúvida de que outro seria o seu comportamento se tivesse a certeza de que o resultado seria negativo para o petista?

Os dois ministros esperam, na verdade, que algum outro colega, então, “leve em mesa” um habeas corpus qualquer, do Senhor X, e que a questão seja retomada, mas sem que eles precisem, digamos, se comprometer com o assunto, já que votarão contra. O nome disso? Covardia e deslealdade com os parceiros de tribunal.

Aí berram os idiotas e os canalhas, alguns a soldo: “Está querendo ajudar Lula!” As minhas divergências com o PT não são apenas políticas, ideológicas, programáticas, de princípios. Ou melhor: elas não se resumem a isso porque, em razão de tudo isso, o partido me prejudicou como indivíduo e empresário e empreendeu, por intermédio de seus asseclas, uma perseguição moral nas redes sociais e nos blogs sujos, financiados, então, com dinheiro público, só comparável àquela que empreende hoje a extrema-direita, com seus financiadores por enquanto ocultos.

Se o partido colaborou de modo contundente para fechar uma revista que eu tinha, a Lava-Jato, uma das facções do Partido da Polícia, vazou conversa minha com uma fonte, o que me levou a me desligar de dois empregos, ainda que nada houvesse lá de comprometedor. Tanto o Partido dos Trabalhadores como o Partido da Polícia buscaram silenciar a crítica e a divergência por intermédio da asfixia econômica do crítico. O fato de que eu tenha sabido dar a volta por cima, e com sobras, nas duas vezes não elimina o caráter despótico de uns e de outros. Lula é hoje vítima de procedimentos que seu partido estimulou. Mas, ora vejam, nem por isso vou assistir inerme à escalada autoritária dos filiados ao Partido da Polícia, estejam eles no Ministério Público, nos tribunais, na imprensa ou mesmo nas legendas partidárias.

E daí que hoje seja Lula a vítima desse despotismo? Amanha pode ser qualquer um de nós, incluindo você que me lê.

Ninguém, na imprensa, foi tão prejudicado pelo PT como fui. Sei bem o que significou ser alvo dos companheiros no tempo em que alguns que hoje vomitam besteiras na Internet estavam ou trabalhando para o partido ou para quem atuava em parceria com ele. Um dia isso tudo vem a público com riqueza de detalhes.

Fui, sou e serei sempre adversário do PT porque não suporto seu caráter autoritário e sua pauta. Mas é evidente que o partido não tem o monopólio do autoritarismo.

Autoritários, no geral, provocam o meu asco. Mesmo quando suas vítimas são os petistas.

É preciso ter vergonha na cara.

Esse cara sou eu.

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Urbs Magna via Click Política

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