DIVULGADAS CARTAS QUE REVELAM FRAUDES DE FREUD E PÕEM PSICANÁLISE EM XEQUE

Livro de Frederick Crews baseia-se em evidências e cartas divulgadas há pouco tempo.

Stefano Pupe

Resumo Autor afirma que uma nova biografia de Freud, escrita por Frederick Crews e ainda inédita no Brasil, põe em xeque a própria psicanálise ao criticar duramente a imagem mitológica de seu fundador. O livro, calcado em evidências documentais, baseia-se também em cartas do austríaco que foram divulgadas há pouco tempo. Leia também o contraponto de M. M. Owen.

Qualquer análise de um fato passa, necessariamente, pelo filtro interpretativo de quem o reporta. Essa observação, popularizada pela psicanálise, também se aplica a seu fundador: o mito de SigmundFreud foi construído pelo próprio austríaco e por seus admiradores.

Ao longo dos anos, Ernest Jones, presidente da Associação Psicanalítica Internacional nas décadas de 1920 e 1930, e Anna Freud, filha e herdeira intelectual do psicanalista, foram responsáveis pela publicação dos documentos pessoais do austríaco, em especial suas cartas.

O trabalho biográfico que se seguiu, baseado nesse material, criou para a posteridade a imagem mitológica do gênio incompreendido que, com insights cortantes sobre psicologia, levou a humanidade à descoberta triunfal do inconsciente.

Mas Frederick Crews tem um ponto de vista diferente e lançou no ano passado “Freud: The Making of an Illusion” (Freud: a construção de uma ilusão), ainda sem lançamento previsto no Brasil.

Crítico de longa data da psicanálise, Crews fez carreira na literatura —é professor emérito da Universidade da Califórnia em Berkeley—, mas desde cedo se interessou pelo campo psicanalítico. Em 1980, publicou o primeiro artigo no qual rejeitava completamente o legado de Freud, criticando sua metodologia falsa, sua ineficiência terapêutica e o dano causado aos pacientes.

Viriam outros ensaios e, finalmente, o influente livro “As Guerras da Memória – O Legado de Freud em Xeque” (Paz e Terra, 1999), que questiona os pilares da psicanálise e documenta falhas metodológicas de seu fundador.

Sua obra mais recente é resultado de anos de pesquisa, mas tem ponto de partida na recente divulgação das versões originais de cartas de Freud inicialmente censuradas por seus biógrafos oficiais. Usando evidências antigas e outras que só se tornaram disponíveis recentemente, Crews faz um ataque incessante à vida pessoal e profissional do “pai da psicanálise”, acusando-o de ser egoísta, preconceituoso, infiel e, acima de tudo, um charlatão que mentiu com frequência em suas obras.

O livro evidencia conhecimento enciclopédico impecável sobre os mínimos detalhes da vida do psicanalista e torna a leitura prazerosa para qualquer apreciador de iconoclastia de alta qualidade, ainda que não tenha interesse em psicanálise.

PRIMEIROS PASSOS

Com foco principal no período de 1884 a 1900, quando Freud iniciava sua carreira como médico e pesquisador em Viena, o autor descreve a trajetória do austríaco como um indivíduo de pouco brilho e nenhum rigor científico. São dessa época as cartas trocadas entre ele e sua noiva, Martha Bernays, com quem se casaria em 1886.

A contribuição mais importante de Freud dessa época é um artigo de 1884 sobre cocaína, então novidade na Europa. Crews sustenta que o psicanalista foi usuário da droga por pelo menos 15 anos —períodosuperior ao apontado por seus biógrafos anteriores, que se basearam em cartas censuradas. (Crews acredita, inclusive, que Jones escondeu propositalmente essa informação em suas biografias.)

Naquele artigo, o austríaco defendeu as virtudes da cocaína como tratamento possível para a dependência de morfina —isto é, que o uso de uma droga combateria os efeitos da abstinência da outra—baseando-se apenas no caso de seu amigo Ernst Fleischl. Porém, em cartas para a noiva, Freud viria descrever o aprofundamento do problema de Fleischl, que nunca deixou a morfina e ainda passou a usar cocaína compulsivamente.

Mesmo assim, o fracasso nunca foi mencionado em artigos posteriores de Freud. Ao contrário, ele repetia que a cocaína não oferecia riscos e seguia proclamando seus efeitos benéficos para tratar sintomas da dependência de morfina.

Em sua vida íntima, Freud traía a esposa com sua cunhada MinnaBernays —fato que o livro documenta em abundância por meio de cartas e testemunhos de terceiros. Tudo indica que ele a engravidou em 1900, e o aborto que se seguiu o teria marcado profundamente.

Ilustração de Gabriel Centurion para a central da Ilustrissima
Ilustração – Gabriel Centurion

Crews traz muitos exemplos da crueldade do psicanalista com pessoas próximas. Era comum que se aproximasse de um colega que supunha ter grande inteligência ou reputação, para posteriormente difamá-lo e renegar a amizade.

Um exemplo claro é Wilhelm Fliess, seu melhor amigo e confidente a partir de 1892, a quem dirigiu palavras como “meu amigo amado” e “11 anos atrás, eu já tinha percebido que era necessário para mim amar você, para enriquecer minha vida”.

Crews considera que Freud nutria, de fato, um desejo sexual por Fliessque contribuiu com muitos conceitos psicanalíticos importantes. No entanto, quando a relação esfriou, o amigo amado foi relegado a notas de rodapé, e Freud contribuiu, inclusive, para que um aluno roubasse o crédito de Fliess sobre sua teoria da bissexualidade.

Para Crews, cartas de Freud também demonstram que ele não tinha o bem-estar de seus pacientes em grande estima. Após o suicídio de Viktor Tausk, um promissor estudante que havia se analisado com ele, o psicanalista confessa, em missiva cruel a uma ex-namorada do morto: “Não sinto a falta dele; eu tinha percebido há muito que ele não poderia mais ser útil”.

As correspondências apontam, ainda, para o interesse específico do psicanalista em seus pacientes. Ele identifica uma cliente rica como peixe de ouro; escreve que dinheiro é seu gás hilariante; num outro momento, relata que decidiu adiar uma viagem porque uma de suas pacientes mais ricas estava tendo algum tipo de crise nervosa e pode melhorar em sua ausência.

Entre os destaques de Crews está o caso de Horace Frink, cujas dificuldades no casamento se deviam, segundo Freud, a desejos homossexuais reprimidos. O psicanalista instigou o paciente a deixar sua esposa e se casar com a amante, uma americana rica e também casada.

Em carta a Frink, Freud escreve: “A reclamação de que você não consegue compreender sua homossexualidade sugere que você ainda não está consciente da sua fantasia de me tornar um homem rico. Se as coisas derem certo, no fim, vamos mudar esse presente imaginário e torná-lo uma contribuição real para os fundos psicanalíticos”.

O novo matrimônio se mostrou um desastre que logo terminaria em divórcio, e o paciente tentaria se suicidar duas vezes.

FRAUDE

O conteúdo mais chocante do livro diz respeito à vida profissional de Freud. Há inúmeras evidências de que o austríaco teria fraudado casos notórios. Segundo Crews, documentos mostram que a técnica psicanalítica consistia em nada mais que uma imposição de opiniões aos pacientes e que estudos publicados eram ficção.

O famoso “Homem dos Lobos”, por exemplo, foi declarado curado de suas fobias e obsessões após quatro anos e meio. Freud sempre destacou esse como um dos primeiros e maiores sucessos da psicanálise. No entanto, sabe-se hoje que o paciente continuou em tratamento por 60 anos —fato que era do conhecimento de Freud— e declarou que não havia sido curado de nada.

Outro caso notório foi o de Emma Eckstein, tratada por Freud como histérica que padecia de “neurose nasal reflexa”. Ele a induziu a fazer cirurgia nasal para curar os sintomas, mas a operação só agravou a situação: a paciente desenvolveu um quadro de infecção e hemorragias, provavelmente causado pelo erro grosseiro de Fliess —como cirurgião, ele deixou um pedaço de gaze de meio metro dentro do nariz da operada.

Nem mesmo o erro do médico e amigo impediu Freud de criar outra justificativa para as complicações: “Os seus episódios de sangramento eram histéricos, causados por desejo, e provavelmente ocorreram em períodos sexualmente relevantes”, escreveu meses depois.

A verdade é que algumas das transgressões apontadas por Crews já eram conhecidas no meio psicanalítico. Sempre predominou, porém, a ideia de que a falibilidade do fundador não põe em dúvida a credibilidade da técnica como um todo.

No entanto, diferentemente do que ocorre com disciplinas científicas como a biologia e a física, a psicanálise depende substancialmente da confiança na figura de Freud.

Se amanhã descobríssemos que Charles Darwin forjou a viagem no Beagle, a teoria da evolução permaneceria intacta, pois existem milhares de evidências independentes que a corroboram.

Mas a psicanálise carece de evidências científicas que possam ser observadas ou replicadas independentemente. Ela é, antes de tudo, um modo de pensamento autorreferente. Se hoje sabemos que casos famosos foram manipulados e falsificados em vários pontos importantes, como identificar o que é legítimo e verdadeiro no que sobra?

Para um campo que ainda trata os textos de Freud como obras praticamente sagradas, a confirmação de que a fraude foi um recurso recorrente de seu fundador cai como uma bomba —pondo em xeque não só a própria figura do austríaco, mas também a técnica psicanalítica como um todo.


Stefano Pupe, 32, mestre em psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutor em neurociências pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, é pesquisador no Centro Alemão para Doenças Degenerativas, em Bonn.

Gabriel Centurion, 39, é artista plástico

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