PAZ, TERRA e PÃO – Sonhos de Outubro – O cem anos da REVOLUÇÃO RUSSA

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Num momento sombrio como o que vivemos, é alentador saber que ainda existem socialistas e comunistas, mesmo após decretarem nossa morte, em 1989. comunistas, socialistas e anarquistas sempre foram os principais inimigos do fascismo, e sempre serão.

Sonhos de Outubro

Os cem anos da Revolução Russa, um dos acontecimentos mais importantes da história da humanidade, são (ou deveriam ser) o momento perfeito para a esquerda se debruçar sobre seu passado e sobre seu futuro.

O sonho socialista já era acalentado no mínimo um século antes daqueles revolucionários liderarem operários e camponeses para derrubar um czar. Foi um longo caminho percorrido até ali, de perseguições, prisões, exílio e execuções de homens e mulheres cujo principal “crime” era desejar um mundo justo para todos e uma vida menos cruel para a classe trabalhadora.

Os que atacam o comunismo atualmente esquecem ou desconhecem como era a vida dos trabalhadores quando as ideias socialistas ainda não haviam se espalhado e se fortalecido com o movimento sindical. Mulheres grávidas e crianças trabalhavam em condições insalubres 14, 16 horas por dia, por salários de morte. Não havia férias nem descanso no fim de semana. Conquistas que foram resultado de muita luta e que estão sofrendo o retrocesso de “reformas” neoliberais que almejam apenas o lucro desenfreado dos maus patrões.

Dizem que onde o homem coloca a mão, estraga. De certa forma foi o que aconteceu com as experiências de socialismo real. Em seu livro sobre Leon Trotski, o poeta brasileiro Paulo Leminski conta que a única época em toda a história da Rússia em que não houve censura foi durante o primeiro ano da revolução. Nem antes nem depois o país conviveu com imprensa livre — em 2017, continua não convivendo.

Eram outros tempos, de revoluções sangrentas, é verdade, mas minha natureza espiritualista me diz que nenhuma das mortes ocorridas em 1917 foi mais grave simbolicamente do que o fuzilamento da família do czar Nicolau II, crianças incluídas, que só aconteceria nove meses depois de outubro. Para quê? É um carma pesado este, e para mim uma espécie de sinal de que a coisa iria degringolar cedo.

Outro sinal foi o suicídio de Vladimir Maiakovski. Revolucionário de primeira hora, o poeta se suicidou aos 36 anos com um tiro no peito em 1930, três anos depois de Josef Stalin passar a controlar a União Soviética com mão de ferro. Por que Maiakovski se matou? Certamente porque algo o decepcionou no processo. Ou será que não se matou? À luz de hoje em dia, acredito que o maior equívoco do comunismo da União Soviética, assim como da Alemanha Oriental (que nem foi fruto de uma revolução) ou mesmo de Cuba, foi achar ser possível uma sociedade em que todos pensem igual. É impossível. A divergência faz parte da natureza humana. Mas, naquela época, pensar diferente era tão perigoso quanto ser um filhote de cervo na Sibéria. Confundiu-se comunismo com ausência de democracia.

Deste erro fundamental, em minha opinião, se originaram todos os outros. Daí se descambou para o totalitarismo e para a ideia de que os inimigos deveriam ser eliminados em paredões ou utilizando assassinos a soldo, picadores de gelo em punho. E são estes equívocos, infelizmente, que são usados contra nós, como se socialismo fosse sinônimo de ditadura e da perseguição de dissidentes. Pior: ainda existem, entre nós, aqueles que persistem em negar estes erros. O legado da Revolução Russa é outro. Em termos morais, por exemplo, não existiu no mundo do início do século 20 uma sociedade onde houvesse tanta igualdade entre homens e mulheres do que na União Soviética de Lenin. O código civil que entrou em vigor a partir de 1918 foi o mais avançado que existira até então. O divórcio foi aprovado e podia ser requisitado pela mulher, ao contrário de todas as outras nações do planeta; os filhos fora do casamento foram reconhecidos; e o aborto, legalizado (Stalin reverteria isto em 1936).

Enquanto a mulher no mundo capitalista ainda luta por direitos iguais, para as mulheres comunistas isto era uma regra. Elas podiam votar e ser votadas desde 1918 — as sufragistas foram conquistar o mesmo direito somente em 1920 nos EUA, e nos anos 1930 no Brasil. Havia mulheres em postos de comando no Exército Vermelho, aviadoras, cientistas…

Isto é particularmente significativo na Alemanha, onde, finda a Segunda Guerra, as mulheres do lado Ocidental voltaram aos cuidados do lar, após anos trabalhando fora para suprir os homens no front, enquanto as Orientais continuaram no mercado de trabalho. Tanto é assim que ainda hoje existem kindergarten (jardins de infância) em maior número do lado Oriental do que do lado Ocidental, porque as crianças precisavam ficar em algum lugar para a mamãe trabalhar. Dizem que isso interferiu até na vida sexual das mulheres comunistas, que, liberadas e desprovidas de religião, seriam mais felizes na cama do que as ocidentais. E os homens também, claro.

Com seus erros e acertos, a Revolução Russa segue sendo uma inspiração para os que acreditam que um mundo melhor é possível. Não pelas armas, e sim pelo voto. Num momento sombrio como o que vivemos, com o espectro do fascismo rondando não só a Europa, é alentador saber que ainda existem socialistas e comunistas, mesmo após decretarem nossa morte, em 1989, com a queda do muro de Berlim.

Comunistas, socialistas e anarquistas sempre foram os principais inimigos do fascismo, e sempre serão. Nossa tarefa é dura e perene. Mas, desta vez, não enfrentaremos o dilema de estar ao lado dos que não reconhecem na democracia o único regime possível. Quem está do lado da ditadura, do totalitarismo, da censura, da perseguição a opositores, são eles. Evoluímos. A direita, não.

Por Cynara Menezes (a socialista morena)


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